{"id":8266,"date":"2025-09-24T14:46:21","date_gmt":"2025-09-24T17:46:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.abrazpe.org.br\/?p=8266"},"modified":"2025-09-24T14:46:22","modified_gmt":"2025-09-24T17:46:22","slug":"laboratorios-do-futuro-as-zonas-economicas-especiais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.abrazpe.org.br\/index.php\/2025\/09\/24\/laboratorios-do-futuro-as-zonas-economicas-especiais\/","title":{"rendered":"Laborat\u00f3rios do Futuro: As Zonas Econ\u00f4micas Especiais"},"content":{"rendered":"<p class=\"estimated-read-time\">Tempo de leitura:<small> 22 minutos<\/small><\/p> \n<p>| Zilan da Costa e Silva | H\u00e1 momentos em que a hist\u00f3ria se curva e o tempo parece condensar d\u00e9cadas em poucos anos, como se a pressa dos homens respondesse a uma convoca\u00e7\u00e3o secreta do destino. A experi\u00eancia chinesa das Zonas Econ\u00f4micas Especiais pertence a esse g\u00eanero raro de acontecimentos em que a pol\u00edtica, a economia e a imagina\u00e7\u00e3o coletiva se fundem numa s\u00f3 for\u00e7a de transforma\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel compreender a China contempor\u00e2nea sem compreender Shenzhen e suas irm\u00e3s; n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel entender o salto civilizat\u00f3rio que retirou da pobreza centenas de milh\u00f5es de pessoas sem ver que tudo come\u00e7ou em pequenas parcelas de territ\u00f3rio cercadas n\u00e3o por muros, mas por exce\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, arranjos institucionais, incentivos calibrados e, sobretudo, por uma f\u00e9 pragm\u00e1tica de que a realidade pode ser transformada pela arquitetura da norma.<\/p>\n\n\n\n<p>As Zonas Econ\u00f4micas Especiais n\u00e3o nasceram como dogma, mas como tentativa. A China que emergia do tumulto da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural era um pa\u00eds exausto, agr\u00e1rio, desconfiado do mundo exterior, mas ciente de que n\u00e3o poderia sobreviver isolado. Foi Deng Xiaoping quem, com o olhar de estadista que enxerga adiante, lan\u00e7ou a m\u00e1xima c\u00e9lebre de que n\u00e3o importava a cor do gato, contanto que ca\u00e7asse ratos. Mas a met\u00e1fora, que tantos repetem, oculta a complexidade do gesto. N\u00e3o se tratava apenas de ca\u00e7ar ratos, mas de domar o tempo, de fazer da exce\u00e7\u00e3o um m\u00e9todo, de aceitar que a lei poderia ser dobrada em certas geografias para que o futuro pudesse se ensaiar. Assim nasceram Shenzhen, Zhuhai, Shantou e Xiamen em 1979, e com elas o laborat\u00f3rio do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/eaiportal\/?__pwa=1\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><\/a>O que significa criar um laborat\u00f3rio de desenvolvimento em escala territorial? Significa, antes de tudo, aceitar que a ordem n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tica. Michel Foucault falava das heterotopias como lugares onde a realidade se reflete e se distorce; as ZEEs foram heterotopias econ\u00f4micas, espa\u00e7os em que o socialismo se permitia conviver com o capital, em que a planifica\u00e7\u00e3o coexistia com o mercado, em que o velho sistema jur\u00eddico da propriedade estatal da terra se abria a direitos de uso alien\u00e1veis, leiloados, listados em mercado. A terra tornou-se, nesses espa\u00e7os, n\u00e3o uma d\u00e1diva imut\u00e1vel do Estado, mas um fator econ\u00f4mico pass\u00edvel de ser transacionado, e isso foi revolucion\u00e1rio. Mais revolucion\u00e1rio, talvez, do que as f\u00e1bricas de montagem que primeiro se instalaram. Porque quando a terra se torna flex\u00edvel, todo o edif\u00edcio institucional se reconfigura, e a sociedade aprende que regras podem mudar, que o futuro pode ser escrito por decreto, desde que o decreto esteja em sintonia com a necessidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso que os livros que analisam a trajet\u00f3ria chinesa insistem tanto na ideia de experimenta\u00e7\u00e3o. Wang Linggui repete que n\u00e3o h\u00e1 modelo a ser transplantado, porque o que define a experi\u00eancia \u00e9 justamente a aus\u00eancia de modelo fixo, a disposi\u00e7\u00e3o de tentar, errar, corrigir, ampliar. Yiming Yuan descreve como cada avan\u00e7o em Shenzhen era acompanhado por relat\u00f3rios, avalia\u00e7\u00f5es, compara\u00e7\u00f5es, e como o que funcionava era ent\u00e3o expandido a outras zonas, e depois ao pa\u00eds inteiro, em um processo que lembrava menos um plano r\u00edgido e mais uma aprendizagem coletiva. O pa\u00eds aprendeu fazendo, mas aprendeu com disciplina: havia m\u00e9tricas, havia autoridades de zona com poderes quase provinciais, havia a capacidade de corrigir rumos e impor metas. N\u00e3o era anarquia; era pragmatismo organizado.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado desse pragmatismo foi vertiginoso. Shenzhen, que nos anos 1970 era uma vila de pescadores, tornou-se em tr\u00eas d\u00e9cadas uma metr\u00f3pole de mais de dez milh\u00f5es de habitantes, com PIB superior ao de pa\u00edses inteiros, polo de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, sede de gigantes como Huawei e Tencent. O caminho foi da montagem barata \u00e0 eletr\u00f4nica de precis\u00e3o, do t\u00eaxtil \u00e0 intelig\u00eancia artificial. Esse salto n\u00e3o teria sido poss\u00edvel sem o mecanismo das zonas, porque foi ali que se ensaiaram regimes de propriedade intelectual, joint ventures com empresas estrangeiras, incentivos fiscais calibrados, infraestrutura log\u00edstica integrada entre portos, aeroportos e parques industriais.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas h\u00e1 sempre o lado obscuro. O milagre da China foi tamb\u00e9m o milagre do trabalho migrante, das massas que deixaram o campo para habitar dormit\u00f3rios coletivos e trabalhar jornadas exaustivas. Foi o milagre de cidades que cresceram mais r\u00e1pido do que podiam ser planejadas, de riscos ambientais que precisaram ser contidos a posteriori, de bolhas imobili\u00e1rias que amea\u00e7aram corroer o edif\u00edcio. Foi o milagre de desigualdades regionais, entre o litoral pr\u00f3spero e o interior esquecido. S\u00f3 a interven\u00e7\u00e3o deliberada do Estado, criando zonas piloto no oeste, corredores de desenvolvimento, pol\u00edticas redistributivas, impediu que a China se tornasse dois pa\u00edses em um.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 aqui que a filosofia se encontra com a economia. Ernst Bloch falava da utopia concreta, aquela que n\u00e3o \u00e9 fantasia distante, mas possibilidade real inscrita no presente. As ZEEs foram utopias concretas: territ\u00f3rios em que se viveu o futuro antes de ele chegar, em que se encenou a modernidade em miniatura para depois difundi-la. O que se ensaiava em Shenzhen n\u00e3o era apenas uma pol\u00edtica industrial, era uma narrativa. Shenzhen tornou-se mito, vitrine, s\u00edmbolo da China que podia ser rica, moderna, urbana, tecnol\u00f3gica. O mito mobiliza, porque desenvolvimento tamb\u00e9m precisa de imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A g\u00eanese das quatro zonas originais da China \u00e9 quase uma cena de teatro pol\u00edtico: o Partido, rec\u00e9m-sa\u00eddo das sombras da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural, autoriza em 1979 a cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os experimentais em Shenzhen, Zhuhai, Shantou e Xiamen. A escolha n\u00e3o foi aleat\u00f3ria. Shenzhen, fronteiri\u00e7a a Hong Kong, poderia sugar a energia do capital e da expertise financeira da antiga col\u00f4nia brit\u00e2nica. Zhuhai, pr\u00f3xima de Macau, simbolizava a abertura a um enclave ainda sob administra\u00e7\u00e3o portuguesa. Shantou carregava uma di\u00e1spora espalhada pelo sudeste asi\u00e1tico, capaz de atrair investimentos de retorno. E Xiamen tinha diante de si o desafio e a promessa de Taiwan, a ilha capitalista de origem chinesa que a qualquer momento poderia ver no litoral de Fujian um espelho de reconcilia\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. As quatro zonas eram pontes, cada uma voltada a um mundo distinto, como se a China estendesse m\u00e3os cautelosas a dire\u00e7\u00f5es diferentes, sem saber qual delas traria o primeiro fruto.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio, quase nada havia. Shenzhen era uma vila de pescadores com menos de cinquenta mil habitantes. Em 1980, mal havia estradas asfaltadas. Mas o decreto criava ali um regime novo: investidores estrangeiros podiam participar de joint ventures com at\u00e9 100% de capital pr\u00f3prio, f\u00e1bricas poderiam importar insumos sem tarifas alfandeg\u00e1rias, a terra podia ser concedida em uso por prazos longos, com direito de transfer\u00eancia. Tudo isso em um pa\u00eds onde, at\u00e9 ent\u00e3o, a ortodoxia socialista proibia a propriedade privada da terra, mantinha r\u00edgidos controles de com\u00e9rcio exterior e punia o enriquecimento individual. O que nascia em Shenzhen era um choque frontal com a ideologia, mas um choque delimitado por per\u00edmetros e guardado pelo Partido como se fosse uma aposta controlada.<\/p>\n\n\n\n<p>E funcionou. Nas primeiras f\u00e1bricas, que produziam brinquedos e t\u00eaxteis para exporta\u00e7\u00e3o, chegavam empres\u00e1rios de Hong Kong, depois japoneses, coreanos, ocidentais. Os migrantes vinham do interior em ondas: jovens, sobretudo mulheres, dispostas a aceitar jornadas longas em troca de sal\u00e1rios que, ainda modestos, eram muito mais altos que os do campo. O Produto Interno Bruto de Shenzhen cresceu a taxas de dois d\u00edgitos durante toda a d\u00e9cada de 1980. Zhuhai seguiu com mais lentid\u00e3o, Shantou enfrentou dificuldades, Xiamen prosperou de modo equilibrado. Mas a experi\u00eancia geral era incontest\u00e1vel: a abertura localizada funcionava.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse primeiro ciclo revelou um tra\u00e7o fundamental do modelo: a capacidade de usar a exce\u00e7\u00e3o como m\u00e9todo. A exce\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, n\u00e3o era arbitr\u00e1ria; era cuidadosamente circunscrita, relatada, avaliada, e depois expandida. O Estado chin\u00eas fez da exce\u00e7\u00e3o uma tecnologia de governo. Em 1984, diante do sucesso inicial, o experimento foi ampliado a 14 cidades costeiras, entre elas Xangai, Tianjin, Dalian, Guangzhou. Mas ainda era Shenzhen o s\u00edmbolo, e \u00e9 significativo que, em 1992, quando Deng Xiaoping sentiu o risco de retrocesso ap\u00f3s o massacre da Pra\u00e7a da Paz Celestial, tenha escolhido Shenzhen para sua famosa \u201cviagem ao sul\u201d, a nanxun. Ali, diante de f\u00e1bricas e arranha-c\u00e9us em ascens\u00e3o, reafirmou que \u201cdesenvolvimento \u00e9 a verdade inquestion\u00e1vel\u201d. O gesto foi perform\u00e1tico: n\u00e3o era no Parlamento, nem no Comit\u00ea Central, mas no espa\u00e7o da exce\u00e7\u00e3o que se proclamava a ortodoxia do futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 1990, o passo seguinte foi decisivo: Pudong, em Xangai. Se Shenzhen nascera como posto avan\u00e7ado junto a Hong Kong, Pudong seria a porta para o mundo inteiro. \u00c0 beira do Huangpu, diante do Bund colonial e do skyline cinzento da velha metr\u00f3pole, ergueu-se uma cidade nova, planejada como distrito financeiro e tecnol\u00f3gico. O Lujiazui, com sua torre P\u00e9rola Oriental, tornou-se o cart\u00e3o de visita da China moderna. Ali n\u00e3o se tratava mais apenas de f\u00e1bricas de exporta\u00e7\u00e3o, mas de bancos, corretoras, multinacionais de servi\u00e7os. A exce\u00e7\u00e3o agora n\u00e3o era s\u00f3 industrial; era tamb\u00e9m financeira e urbana. Pudong mostrou que as ZEEs n\u00e3o eram apenas zonas industriais, mas plataformas integrais de moderniza\u00e7\u00e3o, capazes de reconfigurar uma cidade inteira em uma d\u00e9cada.<\/p>\n\n\n\n<p>A estrat\u00e9gia seguiu o mesmo padr\u00e3o: experimentar, avaliar, expandir. Nas d\u00e9cadas seguintes, a China espalhou zonas especiais para o interior: Chongqing, Chengdu, Xi\u2019an, cidades que antes eram sin\u00f4nimo de atraso, receberam zonas piloto, corredores log\u00edsticos, parques de alta tecnologia. O objetivo era claro: evitar que a abertura se transformasse em um litoral pr\u00f3spero diante de um interior estagnado. O desafio era monumental, porque o interior carecia da proximidade com mercados internacionais. Mas a l\u00f3gica das ZEEs, adaptada, permitiu criar polos de manufatura automotiva, eletr\u00f4nica, qu\u00edmica, e mais tarde parques digitais.<\/p>\n\n\n\n<p>Os relat\u00f3rios anuais, como o Blue Book of Special Economic Zones, mostram a escala dessa transforma\u00e7\u00e3o. Entre 1980 e 2018, as ZEEs responderam por mais de 20% do PIB chin\u00eas, atra\u00edram mais da metade do investimento estrangeiro direto, geraram dezenas de milh\u00f5es de empregos urbanos. Shenzhen sozinha, em 2018, exportava mais do que muitos pa\u00edses latino-americanos juntos. O salto em P&amp;D foi not\u00e1vel: enquanto no in\u00edcio as zonas eram oficinas de montagem, nos anos 2000 j\u00e1 concentravam patentes, universidades, centros de pesquisa, parques de inova\u00e7\u00e3o. O ciclo completo do desenvolvimento \u2014 da oficina ao design, do design \u00e0 inven\u00e7\u00e3o \u2014 se condensou em poucos dec\u00eanios.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a grandiosidade dos n\u00fameros n\u00e3o deve ocultar a filosofia impl\u00edcita. As zonas ensinaram ao povo chin\u00eas que a norma pode ser flex\u00edvel, que a lei pode ser reinventada. Ensinaram ao Partido que a ideologia pode conviver com a pr\u00e1tica heterodoxa sem se dissolver. Ensinaram ao mundo que o Estado pode ser ao mesmo tempo controlador e inovador, disciplinado e experimental. \u00c9 aqui que o paralelo com Foucault e com a no\u00e7\u00e3o de heterotopia ganha sentido: a ZEE \u00e9 um espa\u00e7o outro, em que o real \u00e9 desviado, em que o futuro se encena. Mas n\u00e3o \u00e9 apenas espa\u00e7o; \u00e9 tamb\u00e9m tempo. \u00c9 cronotopia: a dobra do tempo hist\u00f3rico em um territ\u00f3rio delimitado.<\/p>\n\n\n\n<p>Hegel talvez sorrisse diante dessa dial\u00e9tica: o socialismo que sobrevive criando o capital, o capital que floresce sob tutela do socialismo. Marx, se ressuscitasse, talvez se inquietasse: veria na China a prova de que a superestrutura pode reinventar a base, de que a pol\u00edtica pode preceder a economia. Arendt lembraria que a a\u00e7\u00e3o humana \u00e9 sempre imprevis\u00edvel, e que o milagre da liberdade reside justamente na capacidade de come\u00e7ar. As ZEEs s\u00e3o come\u00e7os repetidos, milagres institucionais que mostram a plasticidade do humano diante do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>E como ignorar o contraste com o Brasil? Nos anos 1960 e 1970, o regime militar criou a Zona Franca de Manaus, um enclave fiscal na Amaz\u00f4nia destinado a promover desenvolvimento regional e integra\u00e7\u00e3o nacional. Por um tempo, cumpriu o papel simb\u00f3lico: televisores e motocicletas fabricados na floresta eram sinais de modernidade. Mas a estrutura cristalizou-se em ren\u00fancia fiscal permanente, pouco integrada \u00e0s cadeias globais, dependente do consumo interno e vulner\u00e1vel \u00e0s mudan\u00e7as de tributa\u00e7\u00e3o. Quando o Brasil tentou criar Zonas de Processamento de Exporta\u00e7\u00e3o nos anos 1980 e 1990, os projetos emperraram em burocracia, falta de infraestrutura, inseguran\u00e7a regulat\u00f3ria. O que a China fez com disciplina, n\u00f3s fizemos com improviso. Onde eles criaram laborat\u00f3rios, n\u00f3s criamos exce\u00e7\u00f5es; onde eles experimentaram, n\u00f3s distribu\u00edmos favores, criamos privil\u00e9gios.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhando para o Vietn\u00e3, percebe-se outro caminho. Inspirado pela China, criou zonas costeiras, parques industriais, regimes aduaneiros simplificados. O investimento estrangeiro chegou em eletr\u00f4nicos, t\u00eaxteis, cal\u00e7ados. O pa\u00eds tornou-se parte das cadeias asi\u00e1ticas. Mas mesmo ali os gargalos s\u00e3o claros: a infraestrutura ainda \u00e9 insuficiente, a depend\u00eancia de multinacionais \u00e9 elevada, a inova\u00e7\u00e3o local \u00e9 limitada. O que o Vietn\u00e3 mostra \u00e9 que copiar n\u00e3o basta; \u00e9 preciso internalizar.<\/p>\n\n\n\n<p>Dubai, por sua vez, encarnou o outro extremo: fez das free zones instrumentos de velocidade e conveni\u00eancia. Em Jebel Ali, uma empresa se instala em dias, com 100% de propriedade estrangeira, sem impostos, com integra\u00e7\u00e3o portu\u00e1ria e aeroportu\u00e1ria de primeira linha. Mas o risco \u00e9 o enclave puro: a riqueza circula, mas pouco se enra\u00edza. \u00c9 a l\u00f3gica do hub, n\u00e3o a da na\u00e7\u00e3o. A China, ao contr\u00e1rio, sempre quis que a riqueza se enraizasse, que os fornecedores locais fossem integrados, que os clusters se formassem.<\/p>\n\n\n\n<p>E h\u00e1 Ruanda, pequeno, sem mar, que mesmo assim decidiu criar uma zona em Kigali, com t\u00edtulos de terra claros, facilidades aduaneiras, incentivos calibrados. Em escala modesta, funcionou: o pa\u00eds atraiu manufaturas leves, agroind\u00fastrias, servi\u00e7os. Mas a escala imp\u00f5e limites.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses exemplos apenas refor\u00e7am a singularidade da experi\u00eancia chinesa. Ela mostra que o segredo n\u00e3o est\u00e1 na ren\u00fancia fiscal, nem no per\u00edmetro, nem na promessa de m\u00e3o de obra barata. O segredo est\u00e1 na governan\u00e7a: autoridade de zona com poderes reais, mandato claro, m\u00e9tricas de desempenho, capacidade de errar e corrigir. Est\u00e1 na filosofia pol\u00edtica: fazer da exce\u00e7\u00e3o um m\u00e9todo, da utopia uma pr\u00e1tica. Est\u00e1 na narrativa: fazer do espa\u00e7o um s\u00edmbolo que mobiliza a sociedade inteira.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o Brasil deseja aprender, deve aprender isso: n\u00e3o \u00e9 imitando incentivos, nem copiando decretos, que se cria um Shenzhen. \u00c9 criando laborat\u00f3rios onde a norma \u00e9 flex\u00edvel, onde a burocracia \u00e9 simplificada, onde os prazos s\u00e3o curtos, onde a estabilidade \u00e9 garantida. \u00c9 escolhendo setores estrat\u00e9gicos, conectados a cadeias globais, mas tamb\u00e9m capazes de criar ra\u00edzes locais. \u00c9 usando as zonas n\u00e3o como fim, mas como meio de difundir pr\u00e1ticas ao pa\u00eds inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo contempor\u00e2neo exige novos laborat\u00f3rios. A China mesma j\u00e1 n\u00e3o depende apenas de f\u00e1bricas de montagem, mas cria Zonas de Livre Com\u00e9rcio de nova gera\u00e7\u00e3o, voltadas a finan\u00e7as, servi\u00e7os digitais, economia verde. Para n\u00f3s, brasileiros, a li\u00e7\u00e3o \u00e9 clara: precisamos de zonas que sejam laborat\u00f3rios da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, da bioeconomia amaz\u00f4nica, da ind\u00fastria farmac\u00eautica, da tecnologia digital soberana. Zonas que sejam s\u00edmbolos, como Shenzhen foi para a China. Sem mito, n\u00e3o h\u00e1 mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao entrarmos no s\u00e9culo XXI, o experimento chin\u00eas j\u00e1 n\u00e3o podia ser descrito apenas como uma cole\u00e7\u00e3o de zonas costeiras. O que come\u00e7ou em Shenzhen se tornara uma l\u00f3gica de Estado, uma gram\u00e1tica inteira de governan\u00e7a. As Zonas Econ\u00f4micas Especiais haviam deixado de ser marginais para se tornarem centrais; deixaram de ser exce\u00e7\u00e3o para se tornarem paradigma. O Blue Book sobre as ZEEs registra, por exemplo, que no in\u00edcio dos anos 2000 mais da metade do investimento estrangeiro direto que ingressava na China passava pelas zonas; que a produtividade industrial nelas era superior \u00e0 m\u00e9dia nacional; que a urbaniza\u00e7\u00e3o acelerada era em grande parte produto de seus p\u00f3los. A cidade de Shenzhen, que em 1980 tinha menos de 100 mil habitantes, chegava em 2020 com mais de 12 milh\u00f5es. Mas n\u00e3o era s\u00f3 quantidade. Era qualidade: centros de pesquisa, universidades, patentes, startups, capital de risco. O que come\u00e7ou como montagem de brinquedos tornara-se ecossistema de intelig\u00eancia artificial e telecomunica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>As estat\u00edsticas ajudam a compreender a magnitude. Entre 1980 e 2018, as zonas contribu\u00edram com cerca de 22% do PIB nacional, segundo Yitao Tao e Yiming Yuan. Mais de 30 milh\u00f5es de empregos diretos urbanos estavam vinculados \u00e0s ZEEs. O IDE acumulado ultrapassava centenas de bilh\u00f5es de d\u00f3lares, vindos primeiro do Jap\u00e3o, Coreia, Hong Kong e depois dos Estados Unidos e Europa. Mas a partir dos anos 2000, o fluxo come\u00e7ou tamb\u00e9m a ser interno: empresas chinesas, j\u00e1 maduras, reinvestiam nas pr\u00f3prias zonas, criando o ciclo de inova\u00e7\u00e3o end\u00f3geno. Esse \u00e9 o sinal da maturidade: quando o estrangeiro j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel, mas opcional.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ignorar as contradi\u00e7\u00f5es. O crescimento veloz trouxe desigualdade, degrada\u00e7\u00e3o ambiental, explora\u00e7\u00e3o trabalhista. As f\u00e1bricas de Guangdong nos anos 1990 eram famosas por seus dormit\u00f3rios coletivos, por jornadas de 12 ou 14 horas, por greves e conflitos trabalhistas. O custo humano do milagre foi alto. O Estado, aos poucos, reagiu: introduziu legisla\u00e7\u00e3o trabalhista, ampliou seguridade social, investiu em habita\u00e7\u00e3o, controlou a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. Mas o problema nunca desapareceu. Hoje, Shenzhen \u00e9 tamb\u00e9m s\u00edmbolo do pre\u00e7o da modernidade: habita\u00e7\u00e3o cara, press\u00e3o sobre a juventude, riscos de bolhas.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m o risco geopol\u00edtico. As zonas foram criadas para integrar a China ao mundo. E integraram. Mas essa integra\u00e7\u00e3o trouxe depend\u00eancia de mercados externos, vulnerabilidade a crises financeiras, exposi\u00e7\u00e3o a guerras comerciais. O caso recente da disputa com os Estados Unidos sobre tecnologia 5G mostra como a interdepend\u00eancia \u00e9 ao mesmo tempo for\u00e7a e fragilidade. O que se construiu como laborat\u00f3rio de abertura pode, em um mundo de rivalidade geopol\u00edtica, se tornar vulnerabilidade estrat\u00e9gica. A resposta chinesa tem sido redobrar a aposta em inova\u00e7\u00e3o local, em substitui\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, em soberania digital. O esp\u00edrito da exce\u00e7\u00e3o continua, agora voltado \u00e0 autossufici\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao refletirmos sobre esse processo, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o retornar \u00e0 filosofia. Ernst Bloch falava que o futuro \u00e9 a categoria mais importante do pensamento humano, porque \u00e9 ele que nos permite agir. As zonas s\u00e3o isso: futuros concretos, peda\u00e7os do amanh\u00e3 encenados no presente. Walter Benjamin dizia que a hist\u00f3ria \u00e9 um anjo arrastado para o futuro enquanto olha para as ru\u00ednas do passado. A China das ZEEs \u00e9 esse anjo: constr\u00f3i arranha-c\u00e9us e clusters enquanto as sombras do campo atrasado e das f\u00e1bricas prec\u00e1rias ainda pesam. Mas ao olhar para tr\u00e1s, transforma ru\u00edna em recurso.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o Brasil, a li\u00e7\u00e3o \u00e9 dura. Tivemos nossas pr\u00f3prias zonas: a Zona Franca de Manaus, as tentativas de ZPEs. Mas nunca ousamos fazer da exce\u00e7\u00e3o um m\u00e9todo. Nossas zonas se tornaram privil\u00e9gios fiscais, n\u00e3o laborat\u00f3rios institucionais. A burocracia nunca foi simplificada, os prazos nunca foram respeitados, as m\u00e9tricas nunca foram claras. O pacto federativo, fragmentado, impediu a coordena\u00e7\u00e3o. Enquanto a China criava autoridades de zona com poderes reais, n\u00f3s cri\u00e1vamos \u00f3rg\u00e3os sem dentes. Enquanto eles vinculavam as zonas a uma estrat\u00e9gia nacional de longo prazo, n\u00f3s as subordin\u00e1vamos a barganhas pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nada disso \u00e9 destino. O Brasil pode ainda reinventar suas zonas. A Amaz\u00f4nia, por exemplo, poderia se tornar laborat\u00f3rio da bioeconomia, com direitos de uso da biodiversidade regulados, com inova\u00e7\u00e3o em f\u00e1rmacos, com incentivos \u00e0 pesquisa. Os portos do Nordeste poderiam ser zonas piloto de log\u00edstica verde, com energia e\u00f3lica e solar integradas, com hidrog\u00eanio verde export\u00e1vel. O Sul poderia criar zonas digitais, com soberania de dados, com clusters de software. Mas para isso \u00e9 preciso aprender a li\u00e7\u00e3o: zona n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio; \u00e9 laborat\u00f3rio. Zona n\u00e3o \u00e9 ren\u00fancia fiscal; \u00e9 encadeamento produtivo. Zona n\u00e3o \u00e9 barganha; \u00e9 projeto.<\/p>\n\n\n\n<p>As compara\u00e7\u00f5es internacionais refor\u00e7am essa ideia. O M\u00e9xico mostra o que acontece quando a zona se integra a uma cadeia, mas n\u00e3o sobe a escada tecnol\u00f3gica: depend\u00eancia. O Vietn\u00e3 mostra o que acontece quando se copia sem inovar: gargalos. Dubai mostra o risco do enclave puro: riqueza sem ra\u00edzes. Ruanda mostra que \u00e9 poss\u00edvel mesmo em pequena escala, mas que a escala imp\u00f5e limites. S\u00f3 a China mostrou que a exce\u00e7\u00e3o pode se tornar m\u00e9todo, que a zona pode se tornar na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E aqui entramos na dimens\u00e3o simb\u00f3lica. Shenzhen \u00e9 mito. Pudong \u00e9 mito. S\u00e3o s\u00edmbolos vis\u00edveis do futuro. O Brasil carece desse mito. Manaus j\u00e1 n\u00e3o cumpre esse papel. Precisamos de um Shenzhen brasileiro, de um Pudong amaz\u00f4nico, de um s\u00edmbolo que mobilize a imagina\u00e7\u00e3o. Sem mito, n\u00e3o h\u00e1 mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A filosofia pol\u00edtica nos ensina que o poder n\u00e3o \u00e9 apenas coer\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m narrativa. Maquiavel j\u00e1 sabia: governar \u00e9 tamb\u00e9m convencer. Hannah Arendt dizia que a pol\u00edtica \u00e9 espa\u00e7o de apari\u00e7\u00e3o, de a\u00e7\u00e3o vis\u00edvel. As ZEEs s\u00e3o isso: espa\u00e7os vis\u00edveis onde o futuro aparece. O Brasil precisa de seus pr\u00f3prios espa\u00e7os de apari\u00e7\u00e3o, de suas pr\u00f3prias heterotopias, de suas pr\u00f3prias utopias concretas.<\/p>\n\n\n\n<p>E se n\u00e3o ousarmos, ficaremos para tr\u00e1s. O mundo caminha para uma nova fase: transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, economia digital, soberania tecnol\u00f3gica. A China j\u00e1 cria zonas de livre com\u00e9rcio de nova gera\u00e7\u00e3o, voltadas a servi\u00e7os digitais, \u00e0 economia verde, \u00e0 inova\u00e7\u00e3o em blockchain. O Brasil n\u00e3o pode se contentar com exce\u00e7\u00f5es fiscais herdadas dos anos 1960. Precisa criar laborat\u00f3rios do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao final, a li\u00e7\u00e3o chinesa \u00e9 clara. Desenvolvimento n\u00e3o \u00e9 destino, \u00e9 escolha. N\u00e3o \u00e9 d\u00e1diva, \u00e9 projeto. N\u00e3o \u00e9 acaso, \u00e9 desenho institucional. As zonas mostram que \u00e9 poss\u00edvel governar a incerteza, transformar espa\u00e7o em laborat\u00f3rio, tempo em aliado. Mostram que a exce\u00e7\u00e3o pode se tornar regra, que a utopia pode se tornar pr\u00e1tica. Mostram que o futuro pertence a quem o ensaia.<\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00f3s, brasileiros, diante do drag\u00e3o que se ergueu de uma vila de pescadores, precisamos decidir: seremos eternamente sabi\u00e1s que cantam \u00e0 sombra, ou ousaremos tamb\u00e9m voar?<\/p>\n\n\n\n<p>Para aprofundar mais:<\/p>\n\n\n\n<p>Yuan, Yiming. Studies on China\u2019s Special Economic Zones (vols. 2, 3 e 5).<\/p>\n\n\n\n<p>Tao, Yitao &amp; Yuan, Yiming (eds.). Annual Report on the Development of China\u2019s Special Economic Zones (Blue Book).<\/p>\n\n\n\n<p>Tao, Yitao &amp; Lu, Zhiguo. Special Economic Zones and China\u2019s Development Path.<\/p>\n\n\n\n<p>Wang, Linggui (ed.). China\u2019s Development and the Construction of the Community with a Shared Future for Mankind.<\/p>\n\n\n\n<p>Yin, Jun &amp; Xu, Jia. China\u2019s Plan for Economic and Social Development.<\/p>\n\n\n\n<p>Vogel, Ezra. Deng Xiaoping and the Transformation of China.<\/p>\n\n\n\n<p>Naughton, Barry. The Chinese Economy: Transitions and Growth.<\/p>\n\n\n\n<p>Coase, Ronald &amp; Wang, Ning. How China Became Capitalist.<\/p>\n\n\n\n<p>Lin, Justin Yifu. Demystifying the Chinese Economy.<\/p>\n\n\n\n<p>World Bank. Special Economic Zones: Progress, Emerging Challenges, and Future Directions.<\/p>\n\n\n\n<p>UNCTAD. World Investment Report.<\/p>\n\n\n\n<p>Farole, Thomas &amp; Akinci, Gokhan. Special Economic Zones: Progress, Emerging Challenges and Future Directions.<\/p>\n\n\n\n<p>Zeng, Douglas Zhihua. Building Engines for Growth and Competitiveness in China: Experience with Special Economic Zones and Industrial Clusters.<\/p>\n\n\n\n<p>Allison, Graham. Destined for War: Can America and China Escape Thucydides\u2019s Trap?<\/p>\n\n\n\n<p>Mearsheimer, John. The Tragedy of Great Power Politics.<\/p>\n\n\n\n<p>Kissinger, Henry. On China.<\/p>\n\n\n\n<p>Shambaugh, David. China Goes Global: The Partial Power.<\/p>\n\n\n\n<p>Foucault, Michel. Of Other Spaces.<\/p>\n\n\n\n<p>Bloch, Ernst. Das Prinzip Hoffnung.<\/p>\n\n\n\n<p>Benjamin, Walter. \u00dcber den Begriff der Geschichte.<\/p>\n\n\n\n<p>Arendt, Hannah. The Human Condition.<\/p>\n\n\n\n<p>Beck, Ulrich. Risk Society: Towards a New Modernity.<\/p>\n\n\n\n<p>National Bureau of Statistics of China (NBS).<\/p>\n\n\n\n<p>Ministry of Commerce of the People\u2019s Republic of China (MOFCOM).<\/p>\n\n\n\n<p>Banco Mundial \u2013 World Development Indicators.<\/p>\n\n\n\n<p>UN Comtrade Database.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><strong>Fonte: Portal E a\u00ed | Foto: Israel Museum, Jerusalem<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><small> 22 minutos<\/small> | Zilan da Costa e Silva | H\u00e1 momentos em que a hist\u00f3ria se curva e o tempo parece condensar d\u00e9cadas em poucos anos, como se a pressa dos homens respondesse a uma convoca\u00e7\u00e3o secreta do destino. A experi\u00eancia chinesa das Zonas Econ\u00f4micas Especiais pertence a esse g\u00eanero raro de acontecimentos em que a pol\u00edtica, a economia e a imagina\u00e7\u00e3o coletiva se fundem numa s\u00f3 for\u00e7a de transforma\u00e7\u00e3o. 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