{"id":8992,"date":"2026-05-07T14:30:12","date_gmt":"2026-05-07T17:30:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.abrazpe.org.br\/?p=8992"},"modified":"2026-05-07T14:30:13","modified_gmt":"2026-05-07T17:30:13","slug":"a-diplomacia-da-safra-o-brasil-entre-a-pinca-global-e-o-pragmatismo-soberano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.abrazpe.org.br\/index.php\/2026\/05\/07\/a-diplomacia-da-safra-o-brasil-entre-a-pinca-global-e-o-pragmatismo-soberano\/","title":{"rendered":"A Diplomacia da Safra: O Brasil entre a Pin\u00e7a Global e o Pragmatismo Soberano"},"content":{"rendered":"<p class=\"estimated-read-time\">Tempo de leitura:<small> 5 minutos<\/small><\/p> \n<p><em>Marcelo Kieling<\/em> | Vivemos um mundo fragmentado por conflitos sist\u00eamicos, a atual neutralidade do governo brasileiro, em torno deste agito mundial, deixa de ser uma escolha ret\u00f3rica para se tornar uma estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia log\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p>O cen\u00e1rio global em 2026 se consolidou o que antes era apenas uma suspeita: a Guerra na Ucr\u00e2nia e as chamas no Oriente M\u00e9dio n\u00e3o s\u00e3o crises perif\u00e9ricas, mas as engrenagens de uma reconfigura\u00e7\u00e3o sist\u00eamica. Enquanto a China testa a resili\u00eancia do d\u00f3lar e os EUA tentam conter o eixo Moscou-Teer\u00e3, o Brasil se v\u00ea no centro de uma &#8220;pin\u00e7a&#8221; geopol\u00edtica. Para o nosso pa\u00eds, o desafio n\u00e3o \u00e9 a falta de compradores para nossas commodities, mas a gest\u00e3o cir\u00fargica de riscos em um mundo onde o custo do capital e a disrup\u00e7\u00e3o log\u00edstica ditam o pre\u00e7o di\u00e1rio do prato de comida.<\/p>\n\n\n\n<p>A persist\u00eancia do conflito ucraniano e a escalada direta entre Ir\u00e3 e Israel transformaram o Estreito de Ormuz e as rotas do Mar Negro em gargalos de uma economia de guerra. Para o Brasil, o impacto \u00e9 ambivalente. Se, por um lado, o v\u00e1cuo deixado pela produ\u00e7\u00e3o de milho e trigo da Ucr\u00e2nia abre janelas para nossos produtores, por outro, a depend\u00eancia de 70% da ureia russa nos coloca em uma vulnerabilidade estrat\u00e9gica. N\u00e3o h\u00e1 soberania nacional sem seguran\u00e7a alimentar, e n\u00e3o h\u00e1 seguran\u00e7a alimentar sem um tr\u00e2nsito diplom\u00e1tico sofisticado com quem det\u00e9m a tecnologia dos fertilizantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Pequim, por sua vez, joga o jogo da ambival\u00eancia. Ao se posicionar como a mediadora e compradora de \u00faltima inst\u00e2ncia, a China aprofunda os la\u00e7os com o Sul Global. O Brasil, inserido nessa din\u00e2mica, beneficia-se do apetite chin\u00eas, mas deve observar com cautela a fragmenta\u00e7\u00e3o geoecon\u00f4mica. A desdolariza\u00e7\u00e3o, tema central na \u00faltima C\u00fapula dos BRICS+, n\u00e3o \u00e9 apenas uma mudan\u00e7a de moeda; \u00e9 uma mudan\u00e7a de poder que exige do Estado brasileiro uma governan\u00e7a de excel\u00eancia para n\u00e3o sermos tragados por san\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Os cr\u00edticos da pol\u00edtica brasileira argumentam que a neutralidade brasileira flerta com o isolacionismo moral. Contudo, em sociologia pol\u00edtica, as institui\u00e7\u00f5es devem responder \u00e0s necessidades de sua base social. Um alinhamento autom\u00e1tico ao Ocidente poderia comprometer o fornecimento de energia e insumos, elevando a infla\u00e7\u00e3o a n\u00edveis insuport\u00e1veis para as classes populares e desestruturando o frete nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>O risco real para o Brasil em 2026 n\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia de mercado \u2014 o mundo continuar\u00e1 precisando de prote\u00edna e gr\u00e3os \u2014, mas a instabilidade das rotas e o encarecimento do cr\u00e9dito. A &#8220;neutralidade ativa&#8221; precisa ser acompanhada de uma moderniza\u00e7\u00e3o log\u00edstica interna e de uma diversifica\u00e7\u00e3o de parceiros. O Brasil tem a chance de ser o porto seguro em um oceano de incertezas, desde que mantenha a serenidade institucional &#8211; situa\u00e7\u00e3o que neste momento n\u00e3o \u00e9 das melhores dentro do poder p\u00fablico, para n\u00e3o transformar crises externas em outras rupturas internas, j\u00e1 existentes.<\/p>\n\n\n\n<p>A soberania de uma na\u00e7\u00e3o come\u00e7a na capacidade de alimentar seu povo e manter sua economia b\u00e1sica. No Brasil, o agroneg\u00f3cio \u00e9 o pilar do PIB e da balan\u00e7a comercial. Ao dependermos de 70% a 85% de fertilizantes importados (especialmente da R\u00fassia), transferimos o controle da nossa &#8220;chave de igni\u00e7\u00e3o&#8221; econ\u00f4mica para pot\u00eancias estrangeiras. Se o fluxo de ureia ou pot\u00e1ssio \u00e9 interrompido por san\u00e7\u00f5es ou bloqueios log\u00edsticos, o impacto n\u00e3o \u00e9 apenas no lucro do produtor, mas na infla\u00e7\u00e3o do prato de comida do brasileiro e na estabilidade social.<\/p>\n\n\n\n<p>A tese sobre a neutralidade brasileira encontra aqui sua prova de fogo. O Brasil n\u00e3o se alinha a san\u00e7\u00f5es contra a R\u00fassia n\u00e3o por afinidade ideol\u00f3gica, mas por imperativo categ\u00f3rico de sobreviv\u00eancia. Esta depend\u00eancia limita nossa margem de manobra diplom\u00e1tica: o Itamaraty precisa equilibrar a condena\u00e7\u00e3o de viola\u00e7\u00f5es territoriais com a necessidade pragm\u00e1tica de manter os navios de fertilizantes chegando aos portos de Paranagu\u00e1 e Santos. \u00c9 uma soberania &#8220;condicionada&#8221; pela qu\u00edmica do solo.<\/p>\n\n\n\n<p>Historicamente, o Brasil negligenciou a produ\u00e7\u00e3o nacional de fertilizantes (fechamento de f\u00e1bricas da Petrobras, desinvestimento no setor mineral). Isso revela uma falha na vis\u00e3o de longo prazo do Estado:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2022&nbsp;Risco de Classe: O pequeno produtor \u00e9 o primeiro a ser asfixiado pelo aumento de custos, concentrando ainda mais a terra e a renda.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2022&nbsp;Risco de Territ\u00f3rio: Regi\u00f5es inteiras dependentes da monocultura exportadora ficam \u00e0 merc\u00ea de decis\u00f5es tomadas em Moscou ou Pequim.<\/p>\n\n\n\n<p>O cen\u00e1rio de 2026 imp\u00f5e que o &#8220;calcanhar de Aquiles&#8221; se torne o motor de uma nova pol\u00edtica industrial. A resposta n\u00e3o est\u00e1 apenas na diplomacia, mas na reindustrializa\u00e7\u00e3o voltada \u00e0 seguran\u00e7a estrat\u00e9gica, o que seria &nbsp;extremamente facilitado com a implementa\u00e7\u00e3o das&nbsp;<strong>Zonas de Processamento de Exporta\u00e7\u00e3o (ZPEs)<\/strong>&nbsp;\u2013 um dos instrumentos mais importantes do mundo para promover o desenvolvimento e que se encontra travado, entre n\u00f3s, pela press\u00e3o de um setor industrial refrat\u00e1rio \u00e0 concorr\u00eancia, e devidamente apoiado pelos seus simpatizantes na \u00e1rea do governo respons\u00e1vel pela implanta\u00e7\u00e3o do programa. O destravamento das&nbsp;<strong>ZPEs<\/strong>&nbsp;come\u00e7a a acontecer gra\u00e7as \u00e0 conscientiza\u00e7\u00e3o quanto a seus benef\u00edcios pelos governos estaduais e seus representantes no Congresso Nacional. Em particular, as&nbsp;<strong>ZPEs<\/strong>&nbsp;podem ser o instrumento estrat\u00e9gico para:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2022&nbsp;Viabilizar o investimento em fertilizantes biol\u00f3gicos e minerais nacionais;<\/p>\n\n\n\n<p>\u2022&nbsp;Recuperar a capacidade estatal de produ\u00e7\u00e3o de nitrogenados; e<\/p>\n\n\n\n<p>\u2022&nbsp;Promover a diversifica\u00e7\u00e3o log\u00edstica para reduzir a exposi\u00e7\u00e3o ao Estreito de Ormuz e rotas de conflito.<\/p>\n\n\n\n<p>A depend\u00eancia de fertilizantes \u00e9 o ponto onde a nossa economia de mercado mais avan\u00e7ada (o agro) encontra a nossa maior fragilidade institucional. Sem autonomia sobre os insumos b\u00e1sicos, nossa &#8220;Neutralidade Ativa&#8221; corre o risco de se tornar uma &#8220;Passividade Ref\u00e9m&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A soberania brasileira em 2026 depende menos de discursos e mais da capacidade de garantir a qu\u00edmica que sustenta a nossa terra.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Precisamos mudar o Brasil. Vamos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><strong>Fonte: Komunica | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><small> 5 minutos<\/small> Marcelo Kieling | Vivemos um mundo fragmentado por conflitos sist\u00eamicos, a atual neutralidade do governo brasileiro, em torno deste agito mundial, deixa de ser uma escolha ret\u00f3rica para se tornar uma estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia log\u00edstica. O cen\u00e1rio global em 2026 se consolidou o que antes era apenas uma suspeita: a Guerra na Ucr\u00e2nia e as chamas no Oriente M\u00e9dio n\u00e3o s\u00e3o crises perif\u00e9ricas, mas as engrenagens de uma reconfigura\u00e7\u00e3o sist\u00eamica. 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