{"id":9120,"date":"2026-05-26T14:06:21","date_gmt":"2026-05-26T17:06:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.abrazpe.org.br\/?p=9120"},"modified":"2026-05-26T14:06:24","modified_gmt":"2026-05-26T17:06:24","slug":"brasil-um-gigante-que-recusa-a-propria-vocacao-industrial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.abrazpe.org.br\/index.php\/2026\/05\/26\/brasil-um-gigante-que-recusa-a-propria-vocacao-industrial\/","title":{"rendered":"Brasil: um gigante que recusa a pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o industrial"},"content":{"rendered":"<p class=\"estimated-read-time\">Tempo de leitura:<small> 7 minutos<\/small><\/p> \n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong><em>A ind\u00fastria brasileira e o paradoxo da in\u00e9rcia<\/em><\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><em>Por Marcelo Kieling<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O pa\u00eds que poderia liderar a Quarta Revolu\u00e7\u00e3o Industrial prefere assistir de camarote enquanto o mundo se reorganiza. Enquanto o planeta redefine suas cadeias produtivas e acelera a incorpora\u00e7\u00e3o da Intelig\u00eancia Artificial (IA), o Brasil insiste em n\u00e3o ter uma pol\u00edtica industrial estruturada, abandona as Zonas de Processamento de Exporta\u00e7\u00e3o (ZPEs) e trata a inova\u00e7\u00e3o como pauta secund\u00e1ria. O custo dessa omiss\u00e3o \u00e9 a perpetua\u00e7\u00e3o do subdesenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil vive um paradoxo inc\u00f4modo. De um lado, disp\u00f5e de matriz energ\u00e9tica limpa, parque cient\u00edfico consolidado, mercado interno robusto e posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica no com\u00e9rcio global. De outro, assiste passivamente ao esvaziamento da sua base industrial \u2014 fen\u00f4meno documentado por d\u00e9cadas de dados do IBGE e da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria (CNI) \u2014 sem que o Estado apresente uma pol\u00edtica coerente de revers\u00e3o. N\u00e3o se trata de falta de instrumentos; faltam diagn\u00f3stico compartilhado e vontade pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O custo da aus\u00eancia de pol\u00edtica industrial<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A participa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o no PIB brasileiro&nbsp;encolheu&nbsp;despencou de cerca de&nbsp;36% em meados dos anos 1980&nbsp;para aproximadamente&nbsp;10,8% atualmente.&nbsp;Esse processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o precoce n\u00e3o \u00e9 fruto de fatalidade econ\u00f4mica, mas de escolhas \u2014 ou da aus\u00eancia delas. O pa\u00eds abandonou mecanismos cl\u00e1ssicos de fomento sem substitu\u00ed-los por ferramentas compat\u00edveis com o s\u00e9culo XXI. O resultado \u00e9 uma economia cada vez mais dependente da exporta\u00e7\u00e3o de&nbsp;commodities&nbsp;e da importa\u00e7\u00e3o de bens de maior valor agregado.<\/p>\n\n\n\n<p>A agenda de neoindustrializa\u00e7\u00e3o anunciada nos \u00faltimos anos produziu mais diagn\u00f3sticos do que entregas. Faltam coordena\u00e7\u00e3o entre os entes federativos, continuidade administrativa e, sobretudo, um entendimento de que pol\u00edtica industrial n\u00e3o se confunde com protecionismo \u2014 trata-se de planejamento estrat\u00e9gico com metas verific\u00e1veis, prazos definidos e&nbsp;accountability.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>ZPEs: o instrumento que o Brasil insiste em ignorar<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>As Zonas de Processamento de Exporta\u00e7\u00e3o (ZPEs) s\u00e3o regimes aduaneiros especiais que combinam desonera\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria e simplifica\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica para estimular o investimento e a gera\u00e7\u00e3o de empregos. Mais de 140 pa\u00edses as utilizam com sucesso \u2014 da China a Portugal, do Vietn\u00e3 aos Emirados \u00c1rabes Unidos. O Brasil criou o seu marco legal ainda nos anos 1980, regulamentou a mat\u00e9ria e estruturou uma secretaria administrativa dentro do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento, Ind\u00fastria, Com\u00e9rcio e Servi\u00e7os (MDIC), mas o programa segue implementado com o &#8220;freio de m\u00e3o puxado&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, h\u00e1 13 ZPEs autorizadas por lei, mas somente quatro est\u00e3o em funcionamento ap\u00f3s quase quatro d\u00e9cadas. O entrave n\u00e3o \u00e9 meramente t\u00e9cnico; \u00e9 sobretudo pol\u00edtico. A implementa\u00e7\u00e3o das ZPEs exige coordena\u00e7\u00e3o fina entre o MDIC, o Minist\u00e9rio da Fazenda (Receita Federal) e os governos estaduais.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, o projeto enfrenta resist\u00eancia de setores que se sentem equivocadamente amea\u00e7ados pela concorr\u00eancia das empresas instaladas nesses distritos, caso vendam parte de sua produ\u00e7\u00e3o no mercado interno \u2014 ainda que essa opera\u00e7\u00e3o exija o pagamento integral de todos os tributos devidos. Perde-se de vista o ganho de longo prazo: exporta\u00e7\u00f5es de maior valor agregado, inser\u00e7\u00e3o em cadeias globais de valor e atra\u00e7\u00e3o de Investimento Estrangeiro Direto (IED).<\/p>\n\n\n\n<p>A paralisia das ZPEs \u00e9 o s\u00edmbolo mais acabado da incapacidade brasileira de executar pol\u00edticas industriais consistentes. O instrumento existe, o interesse privado \u00e9 real e o potencial exportador \u00e9 evidente. Falta coordena\u00e7\u00e3o para arrumar a casa.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Intelig\u00eancia Artificial: a engrenagem perdida do desenvolvimento<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Enquanto economias centrais e emergentes disputam a dianteira na incorpora\u00e7\u00e3o da Intelig\u00eancia Artificial aos seus processos produtivos, o Brasil trata o tema como pauta de nicho. N\u00e3o h\u00e1 uma pol\u00edtica p\u00fablica estruturada que vincule o desenvolvimento da IA \u00e0 reindustrializa\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>A IA generativa e os sistemas de aprendizado de m\u00e1quina (machine learning) representam para a ind\u00fastria contempor\u00e2nea o que a eletricidade representou no in\u00edcio do s\u00e9culo XX: uma tecnologia de prop\u00f3sito geral capaz de elevar a produtividade em todas as cadeias. Pa\u00edses como Alemanha, Jap\u00e3o e Coreia do Sul j\u00e1 integram a IA \u00e0 manufatura avan\u00e7ada por meio de manuten\u00e7\u00e3o preditiva, controle de qualidade automatizado, otimiza\u00e7\u00e3o log\u00edstica e design generativo de produtos.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil, que forma milhares de engenheiros e cientistas da computa\u00e7\u00e3o por ano, possui um dos maiores mercados digitais do mundo e j\u00e1 demonstrou compet\u00eancia em setores como agroneg\u00f3cio de precis\u00e3o e&nbsp;fintechs, simplesmente n\u00e3o conecta esses pontos. A IA aparece em discursos e men\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas, mas nunca como eixo de uma pol\u00edtica industrial integrada.<\/p>\n\n\n\n<p>Faltam incentivos fiscais para a ado\u00e7\u00e3o de IA por pequenas e m\u00e9dias empresas (PMEs) industriais, faltam centros de pesquisa aplicada em parceria com o setor privado e falta um programa nacional de requalifica\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho para a nova realidade produtiva. A intelig\u00eancia artificial n\u00e3o \u00e9 tratada como ferramenta de desenvolvimento, mas como tema de confer\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Por que a pol\u00edtica n\u00e3o avan\u00e7a?<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>H\u00e1 raz\u00f5es estruturais e conjunturais para essa paralisia:<\/p>\n\n\n\n<p>1.&nbsp;<strong><em>Horizonte eleitoral curto<\/em><\/strong>:&nbsp;Pol\u00edticas industriais maduras demandam prazos de dez a vinte anos, o que colide com ciclos pol\u00edticos de quatro anos e com a descontinuidade administrativa cr\u00f4nica da gest\u00e3o p\u00fablica brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>2.&nbsp;<strong><em>Fragmenta\u00e7\u00e3o do Estado:<\/em><\/strong><strong><em>&nbsp;<\/em><\/strong>A pol\u00edtica industrial no pa\u00eds \u00e9 disputada por minist\u00e9rios, ag\u00eancias, bancos de fomento e conselhos setoriais que raramente falam a mesma l\u00edngua. Sem uma inst\u00e2ncia central de coordena\u00e7\u00e3o com poder decis\u00f3rio real, as iniciativas se multiplicam sem converg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>3.&nbsp;<strong><em>Captura ideol\u00f3gica do debate:<\/em><\/strong><strong><em>&nbsp;<\/em><\/strong>O cen\u00e1rio \u00e9 dominado por vis\u00f5es antag\u00f4nicas e igualmente insuficientes. De um lado, o protecionismo que confunde pol\u00edtica industrial com reserva de mercado; de outro, o liberalismo de manual que reduz o papel do Estado \u00e0 mera arbitragem regulat\u00f3ria. Nenhuma das correntes oferece um projeto vi\u00e1vel para a ind\u00fastria do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n\n\n\n<p>4.&nbsp;<strong><em>Aus\u00eancia de press\u00e3o social:<\/em><\/strong>&nbsp;A desindustrializa\u00e7\u00e3o n\u00e3o mobiliza as ruas, n\u00e3o pauta debates eleitorais e n\u00e3o move bancadas parlamentares com a mesma for\u00e7a que as pautas distributivas. Sem demanda social organizada, a in\u00e9rcia prevalece.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O caminho para a ruptura<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil precisa romper o ciclo de diagn\u00f3sticos sem execu\u00e7\u00e3o. Uma pol\u00edtica industrial moderna para o s\u00e9culo XXI deve combinar quatro pilares fundamentais:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Operacionaliza\u00e7\u00e3o imediata das ZPEs:<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong>Utiliz\u00e1-las como porta de entrada para a integra\u00e7\u00e3o competitiva do pa\u00eds nas cadeias globais de valor&nbsp;para&nbsp;aumentar&nbsp;o valor agregado das nossas exporta\u00e7\u00f5es ao desonerar a cadeia produtiva, permitindo que mat\u00e9rias-primas b\u00e1sicas sejam transformadas em produtos industriais ou tecnol\u00f3gicos acabados antes de sair do pa\u00eds, impulsionando a participa\u00e7\u00e3o brasileira nas cadeias globais de valor.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Difus\u00e3o de Intelig\u00eancia Artificial na ind\u00fastria:<\/strong>&nbsp;Implementar incentivos fiscais direcionados, estruturar redes de centros de tecnologia aplicada e promover a requalifica\u00e7\u00e3o massiva da for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Governan\u00e7a centralizada:<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong>Criar uma inst\u00e2ncia de coordena\u00e7\u00e3o com mandato plurianual e recursos vinculados, blindada contra descontinuidades pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>M\u00e9tricas e transpar\u00eancia<\/strong>:&nbsp;Estabelecer metas p\u00fablicas de progresso, com relat\u00f3rios anuais submetidos ao Congresso Nacional e \u00e0 sociedade civil.<\/p>\n\n\n\n<p>O custo de n\u00e3o fazer nada \u00e9 conhecido: continuaremos exportando gr\u00e3os e importando intelig\u00eancia. O custo de agir \u00e9 exigente, mas o Brasil j\u00e1 demonstrou, em outros momentos de sua hist\u00f3ria, que \u00e9 capaz de fazer escolhas estrat\u00e9gicas quando a sociedade se mobiliza.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A pergunta que fica \u00e9: esperaremos at\u00e9 quando?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Precisamos mudar o Brasil. Vamos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><strong>Fonte: Komunica | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><small> 7 minutos<\/small> A ind\u00fastria brasileira e o paradoxo da in\u00e9rcia Por Marcelo Kieling O pa\u00eds que poderia liderar a Quarta Revolu\u00e7\u00e3o Industrial prefere assistir de camarote enquanto o mundo se reorganiza. Enquanto o planeta redefine suas cadeias produtivas e acelera a incorpora\u00e7\u00e3o da Intelig\u00eancia Artificial (IA), o Brasil insiste em n\u00e3o ter uma pol\u00edtica industrial estruturada, abandona as Zonas de Processamento de Exporta\u00e7\u00e3o (ZPEs) e trata a inova\u00e7\u00e3o como pauta secund\u00e1ria. O custo dessa omiss\u00e3o \u00e9 a perpetua\u00e7\u00e3o do subdesenvolvimento. O Brasil vive um <a href=\"https:\/\/www.abrazpe.org.br\/index.php\/2026\/05\/26\/brasil-um-gigante-que-recusa-a-propria-vocacao-industrial\/\" class=\"more-link\"><span>Continue lendo<\/span>\u2192<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":9121,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[72,80,74],"class_list":["entry","author-fpx","post-9120","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-artigos","tag-abrazpe","tag-comercio-exterior","tag-zpe"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.abrazpe.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9120","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.abrazpe.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.abrazpe.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abrazpe.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abrazpe.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9120"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.abrazpe.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9120\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9122,"href":"https:\/\/www.abrazpe.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9120\/revisions\/9122"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abrazpe.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9121"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.abrazpe.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9120"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abrazpe.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9120"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.abrazpe.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9120"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}