{"id":9176,"date":"2026-06-14T10:55:03","date_gmt":"2026-06-14T13:55:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.abrazpe.org.br\/?p=9176"},"modified":"2026-06-14T10:55:04","modified_gmt":"2026-06-14T13:55:04","slug":"o-data-center-do-tiktok-no-ceara-o-quebra-cabeca-por-tras-do-gigante-de-r-200-bilhoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.abrazpe.org.br\/index.php\/2026\/06\/14\/o-data-center-do-tiktok-no-ceara-o-quebra-cabeca-por-tras-do-gigante-de-r-200-bilhoes\/","title":{"rendered":"O data center do TikTok no Cear\u00e1: o quebra cabe\u00e7a por tr\u00e1s do gigante de R$ 200 bilh\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p class=\"estimated-read-time\">Tempo de leitura:<small> 8 minutos<\/small><\/p> \n<p>O&nbsp;<strong>Complexo do Pec\u00e9m,<\/strong>&nbsp;no Cear\u00e1, \u00e9 maior do que algumas capitais brasileiras. S\u00e3o 190 km\u00b2 \u2013 contra 93 km\u00b2 de Vit\u00f3ria (ES), por exemplo. Esse polo industrial fica a 60 quil\u00f4metros de Fortaleza. E, naturalmente, \u00e9 um dos maiores do pa\u00eds, onde porto, f\u00e1bricas e linhas de transmiss\u00e3o comp\u00f5em a paisagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi ali que a chinesa&nbsp;<strong>ByteDance<\/strong>, dona do TikTok, escolheu instalar seu primeiro data center na Am\u00e9rica Latina. Esse empreendimento \u00e9 uma parceria com a&nbsp;<strong>Omnia<\/strong>, plataforma de data centers do P\u00e1tria Investimentos, com a geradora de energia renov\u00e1vel&nbsp;<strong>Casa dos Ventos<\/strong>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com um investimento inicial de R$ 50 bilh\u00f5es, trata-se do maior projeto do tipo j\u00e1 anunciado no pa\u00eds. As obras come\u00e7aram em janeiro de 2026 e o in\u00edcio da opera\u00e7\u00e3o est\u00e1 previsto para o terceiro trimestre de 2027.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 a quarta reportagem da s\u00e9rie do&nbsp;<strong>InvestNews<\/strong>&nbsp;sobre o Brasil na corrida global por data centers. Voc\u00ea vai ver aqui um raio-X desse megaprojeto. Na pr\u00e1tica, ele mostra o quebra-cabe\u00e7a necess\u00e1rio para a opera\u00e7\u00e3o de um data center gigante. Come\u00e7ando, claro, pela energia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A energia<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Todo grande data center \u00e9, antes de qualquer coisa, um galp\u00e3o faminto por eletricidade. O do Pec\u00e9m ter\u00e1, na fase inicial, uma capacidade el\u00e9trica de 300 megawatts \u2013 consumo equivalente ao de uma cidade de 2,4 milh\u00e3o de habitantes.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil tem um atributo raro nesse mercado:&nbsp;<a href=\"https:\/\/investnews.com.br\/negocios\/mundo-sem-energia-brasil-data-centers\/\">energia sobrando<\/a>. E o Cear\u00e1, especificamente, \u00e9 o maior produtor de energia e\u00f3lica do pa\u00eds \u2013 gra\u00e7as aos ventos al\u00edsios que sopram constantes do Atl\u00e2ntico o ano inteiro.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.investnews.com.br\/uploads\/2024\/11\/Eolica_Fortaleza_Ceara_GettyImages-1132061306-1024x576.webp\" alt=\"Campo de turbinas e\u00f3licas em paisagem costeira com vegeta\u00e7\u00e3o rasteira e c\u00e9u parcialmente nublado.\" class=\"wp-image-629257\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Turbinas e\u00f3licas nas cercanias a Fortaleza (CE). Foto: Getty Images\/Ze Martinusso<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, a Omnia, respons\u00e1vel pela constru\u00e7\u00e3o do empreendimento, fechou um contrato de 20 anos com a Casa dos Ventos, maior geradora privada de energia e\u00f3lica do Brasil. A geradora vai investir R$ 4 bilh\u00f5es para construir parques e\u00f3licos com capacidade de 700 megawatts.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o data center do TikTok n\u00e3o vai receber energia&nbsp;<em>diretamente<\/em>&nbsp;desses parques. Ele vai alimentar o Sistema Interligado Nacional, a malha que conecta geradores e consumidores de energia no pa\u00eds todo \u2013 incluindo as nossas casas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O contrato com a Casa dos Ventos funciona como uma compensa\u00e7\u00e3o: a energia e\u00f3lica produzida pelos parques entra no sistema, enquanto o data center consome eletricidade da mesma rede.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O capital<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Para construir e operar o data center do TikTok, a Omnia investir\u00e1 do pr\u00f3prio bolso coisa de R$ 10 bilh\u00f5es em infraestrutura \u2013 entre terreno, pr\u00e9dios, subesta\u00e7\u00e3o de energia, sistemas de refrigera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A Omnia foi criada em 2025 para concentrar os investimentos em data centers do&nbsp;<a href=\"https:\/\/investnews.com.br\/negocios\/patria-marlim-azul-claifund-china\/\">P\u00e1tria<\/a>, gestora brasileira de&nbsp;<a href=\"https:\/\/investnews.com.br\/guias\/o-que-e-private-equity\/\">private equity<\/a>. A casa n\u00e3o \u00e9 estreante no setor: fundou a ODATA, vendida \u00e0 americana Aligned em 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<strong>Com a IA, a gente decidiu olhar de novo para o setor<\/strong>, por acreditar que ele passaria a ter uma fase de crescimento diferente\u201d, diz Rodrigo Abreu, CEO da Omnia, em entrevista ao&nbsp;<strong>InvestNews<\/strong>. \u201cAt\u00e9 ent\u00e3o, o foco do desenvolvimento de data center no Brasil era muito voltado \u00e0 nuvem e ao mercado interno\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse padr\u00e3o se repete no setor: data centers exigem uma inje\u00e7\u00e3o obstinada de capital em infraestrutura antes de gerar receita. Por isso, as operadoras costumam crescer apoiadas por grandes gestoras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A&nbsp;<strong>Ascenty<\/strong>, maior operadora de data centers da Am\u00e9rica Latina, \u00e9 uma joint venture entre a americana Digital Realty, uma das maiores donas de data centers do mundo, e a gestora canadense Brookfield.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A&nbsp;<strong>Scala<\/strong>, outra gigante, faz parte do portf\u00f3lio da DigitalBridge, gestora americana especializada em infraestrutura digital.<\/p>\n\n\n\n<p>A&nbsp;<strong>Elea<\/strong>, mais uma, foi comprada pela I Squared Capital, outra gestora global de infraestrutura. E assim vai.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O cliente<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Nenhum projeto desse porte sai do papel sem demanda garantida: o projeto do Pec\u00e9m s\u00f3 existe porque a ByteDance assinou previamente um contrato para ocup\u00e1-lo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEsse contato com ByteDance come\u00e7ou h\u00e1 bastante tempo. Come\u00e7ou porque o P\u00e1tria tem uma presen\u00e7a muito forte na \u00c1sia. Boa parte dos nossos investidores s\u00e3o asi\u00e1ticos\u201d, diz Abreu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O CEO n\u00e3o especifica a dura\u00e7\u00e3o do contrato com a chinesa, mas fala em um horizonte de 10 a 20 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Contratos desse tipo costumam ser longos porque exigem compromissos bilion\u00e1rios dos dois lados: se a Omnia est\u00e1 investindo R$ 10 bilh\u00f5es em infraestrutura, a ByteDance ser\u00e1 respons\u00e1vel por outros R$ 50 bilh\u00f5es em servidores, GPUs e placas de mem\u00f3ria \u2013 o c\u00e9rebro do data center.<\/p>\n\n\n\n<p>E esse \u00e9 s\u00f3 o come\u00e7o. A companhia chinesa anunciou o compromisso de elevar a capacidade do Pec\u00e9m a 1 gigawatt, o que levaria o investimento total no empreendimento para mais de R$ 200 bilh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se do desenho padr\u00e3o nesse mercado: a operadora constr\u00f3i e mant\u00e9m a infraestrutura, enquanto o cliente fica respons\u00e1vel pela parte mais cara da conta \u2013 os equipamentos de TI, que precisam ser importados, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 produ\u00e7\u00e3o nacional relevante.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Isso nos leva ao pr\u00f3ximo elemento do quebra-cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Os impostos<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A Omnia escolheu instalar o data center do TikTok na Zona de Processamento de Exporta\u00e7\u00e3o do Pec\u00e9m, uma ZPE.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>ZPEs s\u00e3o \u00e1reas industriais com tratamento tribut\u00e1rio especial para empresas voltadas ao mercado externo. Quem opera ali pode importar m\u00e1quinas, equipamentos e insumos com isen\u00e7\u00e3o de PIS, Cofins, IPI e Imposto de Importa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No Pec\u00e9m, a ZPE funciona desde 2013 e tem como principal vitrine a sider\u00fargica ArcelorMittal Pec\u00e9m, que produz placas de a\u00e7o para exporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, a mesma l\u00f3gica passa a servir um tipo diferente de exporta\u00e7\u00e3o: o de capacidade de processamento e armazenamento para uma empresa estrangeira.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.investnews.com.br\/uploads\/2026\/06\/ComplexodoPecem.jpeg\" alt=\"Em primeiro plano aparecem \u00e1reas industriais, galp\u00f5es e vias de acesso. Ao fundo, \u00e9 poss\u00edvel ver o porto avan\u00e7ando sobre o mar, cercado por dunas e vegeta\u00e7\u00e3o litor\u00e2nea. A imagem destaca a integra\u00e7\u00e3o entre a infraestrutura log\u00edstica do complexo, a malha rodovi\u00e1ria e a costa cearense.\" class=\"wp-image-803951\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Vista a\u00e9rea do Complexo Industrial e Portu\u00e1rio do Pec\u00e9m, no Cear\u00e1 (Cr\u00e9dito: divulga\u00e7\u00e3o\/SDE Cear\u00e1)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cAssim, a gente desonera uma carga que sempre foi um dos bloqueios para fazer grandes investimentos em data centers no Brasil\u201d, afirma Abreu.<\/p>\n\n\n\n<p>A escolha pela ZPE reduz a depend\u00eancia do projeto em rela\u00e7\u00e3o ao Redata, o regime federal que suspende tributos sobre a importa\u00e7\u00e3o de equipamentos de TI para data centers.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O futuro do programa ainda \u00e9 incerto: a medida provis\u00f3ria que criou o Redata perdeu a validade em fevereiro de 2026 sem ser votada pelo Congresso. Agora, um projeto de lei para substitu\u00ed-la segue em tramita\u00e7\u00e3o no Senado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>E a oposi\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Em abril, ind\u00edgenas do povo Anac\u00e9 bloquearam rodovias em Caucaia durante uma visita de Lula \u00e0 regi\u00e3o. A agenda oficial previa que o presidente passasse pelo canteiro de obras do data center do TikTok \u2013 mas a visita foi cancelada de \u00faltima hora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Este foi o segundo grande protesto contra a obra: em agosto de 2025, o povo Anac\u00e9 j\u00e1 havia ocupado a sede da Semace, o \u00f3rg\u00e3o ambiental do Cear\u00e1, exigindo a suspens\u00e3o do licenciamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa press\u00e3o ganhou eco institucional em maio, quando o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e a Defensoria P\u00fablica da Uni\u00e3o recomendaram que o data center n\u00e3o entrasse em opera\u00e7\u00e3o antes de cumprir novas exig\u00eancias ambientais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para os \u00f3rg\u00e3os, o estudo usado no licenciamento n\u00e3o \u00e9 suficiente para medir os impactos de um empreendimento desse porte. Eles questionam, por exemplo, o consumo de \u00e1gua previsto para a opera\u00e7\u00e3o: falam em 88 mil litros por dia, quase tr\u00eas vezes mais do que o informado inicialmente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Omnia contesta os n\u00fameros apresentados pelos \u00f3rg\u00e3os. \u201cAs preocupa\u00e7\u00f5es que foram manifestadas por v\u00e1rios atores nesse processo todo, e o MPF \u00e9 apenas um deles, vieram por desconhecimento do projeto\u201d, diz Abreu. \u201cNosso laudo de acesso \u00e0 \u00e1gua, por exemplo, mostra que o consumo \u00e9 t\u00e3o baixo que em alguns Estados ele nem seria pass\u00edvel de licenciamento\u201d.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.investnews.com.br\/uploads\/2026\/06\/PortodoPecem1equilibrada.jpg\" alt=\"A imagem mostra o cais cercado por \u00e1guas azul-turquesa, com navios atracados para carga e descarga de mercadorias. Cont\u00eaineres, equipamentos portu\u00e1rios e \u00e1reas de opera\u00e7\u00e3o ocupam a faixa de concreto entre o mar e a \u00e1rea interna do porto.\" class=\"wp-image-803956\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Vista a\u00e9rea do Porto do Pec\u00e9m, no Cear\u00e1 (Cr\u00e9dito: divulga\u00e7\u00e3o\/SDE Cear\u00e1)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Mas conflitos desse tipo t\u00eam se tornado comuns em regi\u00f5es que atra\u00edram grandes investimentos em data centers. \u00c0 medida que essas estruturas crescem em tamanho e consumo de recursos, aumentam tamb\u00e9m os questionamentos sobre \u00e1gua, energia e polui\u00e7\u00e3o sonora \u2013 os sistemas de refrigera\u00e7\u00e3o fazem um barulho constante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em Quer\u00e9taro, no M\u00e9xico, a expans\u00e3o acelerada do setor coincidiu com uma crise h\u00eddrica que deixou milh\u00f5es de pessoas sob algum tipo de restri\u00e7\u00e3o de \u00e1gua. Moradores passaram a questionar o consumo dos novos empreendimentos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Holanda viveu uma discuss\u00e3o semelhante em 2022, quando um projeto da Meta foi barrado ap\u00f3s cr\u00edticas sobre o uso de terras agr\u00edcolas, energia e \u00e1gua. O caso acabou se transformando em um debate nacional sobre os limites da expans\u00e3o do setor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja: o Pec\u00e9m condensa, em um \u00fanico endere\u00e7o, todos os atributos que tornam o Brasil atraente para o setor. E tamb\u00e9m as disputas locais que essa atratividade implica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><strong>Fonte: InvestNews | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><small> 8 minutos<\/small> O&nbsp;Complexo do Pec\u00e9m,&nbsp;no Cear\u00e1, \u00e9 maior do que algumas capitais brasileiras. S\u00e3o 190 km\u00b2 \u2013 contra 93 km\u00b2 de Vit\u00f3ria (ES), por exemplo. Esse polo industrial fica a 60 quil\u00f4metros de Fortaleza. E, naturalmente, \u00e9 um dos maiores do pa\u00eds, onde porto, f\u00e1bricas e linhas de transmiss\u00e3o comp\u00f5em a paisagem. Foi ali que a chinesa&nbsp;ByteDance, dona do TikTok, escolheu instalar seu primeiro data center na Am\u00e9rica Latina. 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