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José Reinaldo Tavares | A Transposição do Rio São Francisco para o Semiárido é considerada a maior obra de engenharia hídrica do país, o maior benefício feito ao Nordeste até hoje. E olha que tem mais de 70 obras sendo executadas visando ampliar os beneficios da transposição.
E um projeto que me envaidece muito, muito bem projetado, bem executado, que permitiu parar com o êxodo da população nordestina em busca de trabalho no Sul e no Sudeste, acabando com as frentes de serviço dominadas pela corrupção. E que deu projeção internacional ao DNOS pelo trabalho em conjunto com o Bureau of Reclamation do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos com apoio do BIRD.
Mas, se olharmos para o mundo, se olharmos diferentes transposições de bacias e os beneticios esperados. veremos que a água pode ser considerada um ativo nacional, tão importante quando a defesa e a energia.
A água é fundamental a tudo. A nossa transposição tinha o caráter regional, social, combatia a sede e garantia água todos os anos no semiárido. E foi um êxito enorme, em todos os estados atendidos.
Porém, no mundo, cada país usa a água com diferentes propósitos. A China, por exemplo, está fazendo um projeto gigantesco, que virou referência mundial, quando o tema é segurança hídrica em grande escala. A ideia central é levar água do sul da China para regiões áridas e superpovoadas do Norte, onde estão Pequim, Tianjin e grandes polos industriais e agrícolas.
A escala do projeto impressiona. São mais de 4.000 km de canais, túneis e aquedutos.
Atende direta ou indiretamente mais de 400 milhões de pessoas e a capacidade projetada é de 45 bilhões de m’ de água por ano. A motivação maior do projeto é que o Norte da China tem 40% da população, mas tem menos de 20% da água. São regiões críticas que produzem grãos, aço, energia, tecnologia.
Sem água, não há estabilidade econômica nem política. Vejamos o caso do Maranhão. O estado nunca participou de uma transposição e seu rio mais importante está no limite para atender 60% da população da Ilha de São Luís – o que é pouco – e ainda atender à ZPE de Bacabeira. A Companhia de Águas, a Caema, é deficitária, a perda de água é gigantesca e não tem capacidade de investimento, por si só.
O Nordeste hoje é uma região muito populosa, mas não tem água suficiente para suportar um projeto de desenvolvimento econômico em larga escala. O Maranhão, se tiver água suficiente, poderá crescer rapidamente, concentrar várias ZPEs, distritos Industriais e, se somar tudo isso ao Porto de Alcântara junto ao Atlantico profundo, seremos imbatíveis, pois ninguém terá condições de competir conosco em fretes marítimos de longo Temos energia renovável abundante, trechos ferroviários ligados aos principais eixos ferroviários brasileiros, a ZPE-MA, a agroindústria (cadeias completas, não só a lavoura), zonas logisticas sem comparações com outros estados relevante para os polos industriais). E, juntando alguns rios relevantes e fazendo a transposição, teremos água para consumo, irrigação em grande escala, indústria, energia, segurança climática.
O Nordeste é pobre de integração hídrica e, liberto disso, terá um crescimento exponencial. A China fez isso, a Califórnia fez isso, a Espanha fez isso. O Brasil tem rios maiores de que todos esses países só que nunca decidiu integrar consumo humano na ponta.
E que rios poderiam suportar um projeto como esse, mesmo juntando ao Maranhão outros estados nordestinos?
Esse é, na verdade, um projeto estruturante para segurança hídrica, indústria e crescimento econômico com um horizonte de 20 anos que poderiamos chamar MARANHãO- PILOTO REGIONAL DE INTEGRAÇÃO HIDRICA.
Por que temos que fazer isso? Vamos pegar quatro motivos muito importantes, chamá-los de desafios estratégicos:
– Crescimento urbano exige segurança hídrica permanente;
– Indústria e ZPEs precisam de água contratável e previsível;
– Estiagens aumentam vulnerabilidade
– Água precisa deixar de ser risco e virar ativo estruturante.
A solução proposta:
Integração dos rios Tocantins + Itapecuru + rios costeiros maranhenses.
Por enquanto, vamos pensar apenas no Maranhão, embora o projeto seja escalável para MA-PI-CE:
– Hubs de reservação (Norte, Central e Sul);
– Separação entre água urbana e industrial;
– Impacto Econômico Direto um exemplo do que poderá ser feito: 4 a 6 polos industriais estruturados, água firme para ZPE e polos logísticos, integração com portos de Itaqui e Alcântara, aumento da atratividade para investimento privado.
Segurança Hídrica Urbana:
– 4 a 5 milhões com abastecimento estável;
– Redução estrutural de perdas (meta 25%);
– Reservatórios estratégicos na ilha de São Luís;
– Redução do risco político e social
Dimensão Técnica (Cenário Base):
– Vazão útil total: 13 a 20 m/s;
– Investimento estimado: R$ 45-70 bilhões;
– Projeto faseado em 3 etapas (20 anos);
– Possibilidade de financiamento estruturado (PPP + bancos de desenvolvimento
Fases de Implantação:
– Fase 1 (0 a 5 anos)
– Fase 2 (5 a 12 anos)
– Corredor Tocantins + Água Industrial dedicada;
– Fase 3 (12 a 20 anos);
– Consolidação e expansão regional
Mas de onde virá a água? Do Rio Tocantins, esse rio esquecido que tem cinco vezes a vazão do Rio São Francisco, e que hoje toda a imensidão de água que corre em seu leito tem como destino final o Oceano Atlântico.
É esse rio que banha o Maranhão que suprirá toda a água necessária ao projeto.
E suficiente para garantir uma mudança enorme no desenvolvimento no Nordeste, baseado na integração de energia, alimento, logística.
Uma mensagem estratégica é necessária.
Água organizada é base de crescimento organizado. O Maranhão pode liderar um novo ciclo de Desenvolvimento do Nordeste tendo um projeto com impacto econômico, social e institucional.
Será um piloto estadual com potencial nacional. Vamos discuti-lo, internamente e externamente, inclusive buscando a cooperação de outros países com experiência no assunto.
Fonte: Jornal O Pequeno | Foto: Divulgação/Ministério da Integração Nacional
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