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Um único data center de grande porte pode mobilizar cerca de R$ 25 bilhões em investimentos e gerar efeitos que se espalham por diferentes setores da economia brasileira. Um estudo da FGV Projetos estima que a implantação de uma unidade de 100 MW pode criar 37,2 mil empregos, considerando vagas diretas, indiretas e aquelas geradas pelo aumento do consumo das famílias.
O potencial do setor ganhou novo impulso com a aprovação pelo Senado, na última terça-feira (1º), do projeto de lei (PL) que cria incentivos fiscais para a instalação e ampliação de centros de processamento de dados no Brasil. O texto, que prevê cinco anos de benefícios tributários e condições mais favoráveis para investimentos no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, segue para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O projeto cria o Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter) e suspende tributos federais na compra de equipamentos usados na instalação, ampliação e modernização desses centros. O texto já havia passado pela Câmara e agora depende da sanção presidencial.
Estudo da FGV Projetos, encomendado pelas empresas Scala Data Centers e Norgás, estima que um data center de 100 MW preparado para inteligência artificial pode envolver aproximadamente R$ 25 bilhões em investimentos. São cerca de R$ 5 bilhões na infraestrutura física e outros R$ 20 bilhões em servidores, GPUs, sistemas de armazenamento e outros equipamentos computacionais.
Dos R$ 5 bilhões investidos pelo operador, cerca de R$ 3,6 bilhões ficam efetivamente na economia brasileira. A FGV desconta da conta os equipamentos importados e usa esse valor para calcular os impactos sobre produção, renda, empregos e Produto Interno Bruto (PIB). Somados os efeitos diretos, indiretos e aqueles provocados pelo aumento do consumo das famílias, o estudo estima impacto de R$ 5,7 bilhões sobre a produção e de R$ 2,86 bilhões sobre o PIB.
A implantação do data center cria cerca de 12,6 mil postos diretos e indiretos ao longo da cadeia produtiva. O aumento da renda e do consumo dessas famílias pode induzir outros 24,6 mil empregos em setores como comércio, alimentação, transporte, saúde, educação e serviços, segundo a pesquisa.
A maior parte das vagas diretas surge durante os 18 a 36 meses de implantação. Após a entrada em operação, a FGV estima que o empreendimento sustente cerca de 1.860 postos permanentes, incluindo trabalhadores da operação, manutenção e serviços de apoio.
O setor de tecnologia concentra 61,5% dos empregos diretos e indiretos estimados. A FGV usa como referência as atividades de desenvolvimento de sistemas e outros serviços de TI, que incluem processamento, hospedagem e infraestrutura digital. Outros postos aparecem em serviços administrativos, comércio, manutenção de equipamentos, atividades jurídicas, contabilidade e consultoria.
Os empregos diretos e indiretos movimentariam cerca de R$ 590 milhões em remunerações. Quando o estudo considera também o efeito induzido pelo consumo das famílias beneficiadas, o impacto estimado sobre a renda do trabalho sobe para aproximadamente R$ 1,04 bilhão.
A nova legislação também pode ajudar a diminuir o déficit comercial brasileiro em serviços de tecnologia, segundo a Brasscom. A associação que representa empresas do setor afirma que o Brasil registrou em 2025 déficit de US$ 7,9 bilhões na balança de serviços de computação e informação, resultado da diferença entre o que o país compra e vende ao exterior nesse segmento.
O que dizem especialistas
Fabrício Polido, sócio da L.O. Baptista Advogados, destaca a importância geopolítica desses investimentos em meio à disputa tecnológica entre Estados Unidos e China. O data center que atenderá a ByteDance, dona do TikTok, está sendo construído na Zona de Processamento de Exportação (ZPE) do Pecém e será voltado à exportação de capacidade de processamento para usuários de outros países.
O projeto do TikTok envolve investimentos estimados em mais de R$ 200 bilhões. A empresa anunciou que o empreendimento será seu primeiro data center na América Latina. A estrutura está sendo desenvolvida em parceria com a Omnia, do Pátria Investimentos, e a Casa dos Ventos, no Ceará.
Mudança feita pelo Senado abriu espaço para discussão sobre o uso de combustíveis fósseis. O texto passou a exigir energia proveniente de fontes renováveis ou “de baixa emissão”, em vez de usar a expressão “energia limpa”. Para Guilherme Bruschini, sócio da BBC Advogados, a nova redação pode permitir a utilização de gás natural, que é um combustível fóssil, e enfraquecer o objetivo ambiental da política.
Bruschini e Polido afirmam que, sem mecanismos de transferência de tecnologia e aumento da produção nacional de equipamentos, o país pode continuar dependente da importação de servidores, chips e outros componentes de alto valor agregado, mesmo ampliando sua capacidade de processamento de dados.
O impacto para o consumidor de serviços digitais tende a aparecer no médio e longo prazo. Henrique Reis, CEO da empresa de tecnologia Sourei, afirma que o incentivo tributário, sozinho, não resolve os gargalos para a expansão do setor. Grandes data centers também dependem de disponibilidade de energia, novas linhas de transmissão e redes de fibra óptica capazes de atender ao aumento da demanda.
Entenda o projeto
O Redata suspende tributos federais na compra de equipamentos por cinco anos. O benefício alcança PIS/Pasep, Cofins e IPI nas aquisições previstas pelo programa, além do Imposto de Importação. No caso dos produtos importados, a suspensão do imposto só vale quando não houver produção nacional equivalente. Cumpridas as contrapartidas previstas na legislação, a suspensão dos tributos é convertida em isenção definitiva.
O governo estima renúncia de R$ 7,25 bilhões entre 2026 e 2028 – a previsão é de impacto de R$ 5,2 bilhões neste ano, R$ 1 bilhão em 2027 e R$ 1,05 bilhão em 2028. O programa busca reduzir o custo para instalação de infraestrutura digital no Brasil, considerado um dos obstáculos para atrair investimentos do setor.
Cerca de 60% das cargas digitais brasileiras são processadas no exterior, segundo o Ministério da Fazenda. Para o governo, essa dependência aumenta custos, reduz a competitividade das empresas brasileiras e representa um risco para a soberania digital do país.
As empresas beneficiadas precisam destinar ao menos 10% da capacidade de processamento ao mercado brasileiro. Elas também terão de usar energia de fontes renováveis ou de baixa emissão, cumprir critérios de eficiência hídrica e investir no país o equivalente a 2% do valor dos equipamentos adquiridos com o benefício fiscal em projetos ligados a pesquisa, desenvolvimento e inovação.
O consumo de água para resfriamento também terá limite. O texto estabelece Índice de Eficiência Hídrica igual ou inferior a 0,05 litro de água por kWh, medido anualmente. As empresas ainda precisarão divulgar relatórios de sustentabilidade com informações sobre consumo hídrico, fontes de energia e outros indicadores.
Exigências são menores para empreendimentos no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, já que nessas regiões a parcela mínima da capacidade destinada ao mercado brasileiro cai de 10% para 8%, enquanto o investimento obrigatório em pesquisa, desenvolvimento e inovação recua de 2% para 1,6% do valor dos equipamentos beneficiados. O projeto determina ainda que pelo menos 40% dos recursos destinados a programas de fomento à economia digital sejam aplicados nessas regiões.
O descumprimento das regras pode levar à perda dos benefícios. Em determinadas obrigações, a empresa terá de pagar os tributos suspensos com juros e multa. No caso do descumprimento da cota de processamento destinada ao mercado brasileiro, novas compras deixam de receber o incentivo e, se a irregularidade não for corrigida em 180 dias, a habilitação no Redata é cancelada.
Fonte: Uol | Foto: Reprodução
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