O data center do TikTok no Ceará: o quebra cabeça por trás do gigante de R$ 200 bilhões

O data center do TikTok no Ceará: o quebra cabeça por trás do gigante de R$ 200 bilhões

Tempo de leitura: 8 minutos

Complexo do Pecém, no Ceará, é maior do que algumas capitais brasileiras. São 190 km² – contra 93 km² de Vitória (ES), por exemplo. Esse polo industrial fica a 60 quilômetros de Fortaleza. E, naturalmente, é um dos maiores do país, onde porto, fábricas e linhas de transmissão compõem a paisagem.

Foi ali que a chinesa ByteDance, dona do TikTok, escolheu instalar seu primeiro data center na América Latina. Esse empreendimento é uma parceria com a Omnia, plataforma de data centers do Pátria Investimentos, com a geradora de energia renovável Casa dos Ventos

Com um investimento inicial de R$ 50 bilhões, trata-se do maior projeto do tipo já anunciado no país. As obras começaram em janeiro de 2026 e o início da operação está previsto para o terceiro trimestre de 2027.

Esta é a quarta reportagem da série do InvestNews sobre o Brasil na corrida global por data centers. Você vai ver aqui um raio-X desse megaprojeto. Na prática, ele mostra o quebra-cabeça necessário para a operação de um data center gigante. Começando, claro, pela energia.

A energia

Todo grande data center é, antes de qualquer coisa, um galpão faminto por eletricidade. O do Pecém terá, na fase inicial, uma capacidade elétrica de 300 megawatts – consumo equivalente ao de uma cidade de 2,4 milhão de habitantes.

O Brasil tem um atributo raro nesse mercado: energia sobrando. E o Ceará, especificamente, é o maior produtor de energia eólica do país – graças aos ventos alísios que sopram constantes do Atlântico o ano inteiro.

Campo de turbinas eólicas em paisagem costeira com vegetação rasteira e céu parcialmente nublado.
Turbinas eólicas nas cercanias a Fortaleza (CE). Foto: Getty Images/Ze Martinusso

Não à toa, a Omnia, responsável pela construção do empreendimento, fechou um contrato de 20 anos com a Casa dos Ventos, maior geradora privada de energia eólica do Brasil. A geradora vai investir R$ 4 bilhões para construir parques eólicos com capacidade de 700 megawatts.

Mas o data center do TikTok não vai receber energia diretamente desses parques. Ele vai alimentar o Sistema Interligado Nacional, a malha que conecta geradores e consumidores de energia no país todo – incluindo as nossas casas. 

O contrato com a Casa dos Ventos funciona como uma compensação: a energia eólica produzida pelos parques entra no sistema, enquanto o data center consome eletricidade da mesma rede.  

O capital

Para construir e operar o data center do TikTok, a Omnia investirá do próprio bolso coisa de R$ 10 bilhões em infraestrutura – entre terreno, prédios, subestação de energia, sistemas de refrigeração.

A Omnia foi criada em 2025 para concentrar os investimentos em data centers do Pátria, gestora brasileira de private equity. A casa não é estreante no setor: fundou a ODATA, vendida à americana Aligned em 2023.

Com a IA, a gente decidiu olhar de novo para o setor, por acreditar que ele passaria a ter uma fase de crescimento diferente”, diz Rodrigo Abreu, CEO da Omnia, em entrevista ao InvestNews. “Até então, o foco do desenvolvimento de data center no Brasil era muito voltado à nuvem e ao mercado interno”. 

Esse padrão se repete no setor: data centers exigem uma injeção obstinada de capital em infraestrutura antes de gerar receita. Por isso, as operadoras costumam crescer apoiadas por grandes gestoras. 

Ascenty, maior operadora de data centers da América Latina, é uma joint venture entre a americana Digital Realty, uma das maiores donas de data centers do mundo, e a gestora canadense Brookfield. 

Scala, outra gigante, faz parte do portfólio da DigitalBridge, gestora americana especializada em infraestrutura digital.

Elea, mais uma, foi comprada pela I Squared Capital, outra gestora global de infraestrutura. E assim vai. 

O cliente

Nenhum projeto desse porte sai do papel sem demanda garantida: o projeto do Pecém só existe porque a ByteDance assinou previamente um contrato para ocupá-lo. 

“Esse contato com ByteDance começou há bastante tempo. Começou porque o Pátria tem uma presença muito forte na Ásia. Boa parte dos nossos investidores são asiáticos”, diz Abreu. 

O CEO não especifica a duração do contrato com a chinesa, mas fala em um horizonte de 10 a 20 anos.

Contratos desse tipo costumam ser longos porque exigem compromissos bilionários dos dois lados: se a Omnia está investindo R$ 10 bilhões em infraestrutura, a ByteDance será responsável por outros R$ 50 bilhões em servidores, GPUs e placas de memória – o cérebro do data center.

E esse é só o começo. A companhia chinesa anunciou o compromisso de elevar a capacidade do Pecém a 1 gigawatt, o que levaria o investimento total no empreendimento para mais de R$ 200 bilhões.

Trata-se do desenho padrão nesse mercado: a operadora constrói e mantém a infraestrutura, enquanto o cliente fica responsável pela parte mais cara da conta – os equipamentos de TI, que precisam ser importados, já que não há produção nacional relevante.  

Isso nos leva ao próximo elemento do quebra-cabeça.

Os impostos

A Omnia escolheu instalar o data center do TikTok na Zona de Processamento de Exportação do Pecém, uma ZPE. 

ZPEs são áreas industriais com tratamento tributário especial para empresas voltadas ao mercado externo. Quem opera ali pode importar máquinas, equipamentos e insumos com isenção de PIS, Cofins, IPI e Imposto de Importação.

No Pecém, a ZPE funciona desde 2013 e tem como principal vitrine a siderúrgica ArcelorMittal Pecém, que produz placas de aço para exportação.

Agora, a mesma lógica passa a servir um tipo diferente de exportação: o de capacidade de processamento e armazenamento para uma empresa estrangeira.

Em primeiro plano aparecem áreas industriais, galpões e vias de acesso. Ao fundo, é possível ver o porto avançando sobre o mar, cercado por dunas e vegetação litorânea. A imagem destaca a integração entre a infraestrutura logística do complexo, a malha rodoviária e a costa cearense.
Vista aérea do Complexo Industrial e Portuário do Pecém, no Ceará (Crédito: divulgação/SDE Ceará)

“Assim, a gente desonera uma carga que sempre foi um dos bloqueios para fazer grandes investimentos em data centers no Brasil”, afirma Abreu.

A escolha pela ZPE reduz a dependência do projeto em relação ao Redata, o regime federal que suspende tributos sobre a importação de equipamentos de TI para data centers. 

O futuro do programa ainda é incerto: a medida provisória que criou o Redata perdeu a validade em fevereiro de 2026 sem ser votada pelo Congresso. Agora, um projeto de lei para substituí-la segue em tramitação no Senado. 

E a oposição

Em abril, indígenas do povo Anacé bloquearam rodovias em Caucaia durante uma visita de Lula à região. A agenda oficial previa que o presidente passasse pelo canteiro de obras do data center do TikTok – mas a visita foi cancelada de última hora. 

Este foi o segundo grande protesto contra a obra: em agosto de 2025, o povo Anacé já havia ocupado a sede da Semace, o órgão ambiental do Ceará, exigindo a suspensão do licenciamento.

Essa pressão ganhou eco institucional em maio, quando o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União recomendaram que o data center não entrasse em operação antes de cumprir novas exigências ambientais. 

Para os órgãos, o estudo usado no licenciamento não é suficiente para medir os impactos de um empreendimento desse porte. Eles questionam, por exemplo, o consumo de água previsto para a operação: falam em 88 mil litros por dia, quase três vezes mais do que o informado inicialmente. 

A Omnia contesta os números apresentados pelos órgãos. “As preocupações que foram manifestadas por vários atores nesse processo todo, e o MPF é apenas um deles, vieram por desconhecimento do projeto”, diz Abreu. “Nosso laudo de acesso à água, por exemplo, mostra que o consumo é tão baixo que em alguns Estados ele nem seria passível de licenciamento”.  

A imagem mostra o cais cercado por águas azul-turquesa, com navios atracados para carga e descarga de mercadorias. Contêineres, equipamentos portuários e áreas de operação ocupam a faixa de concreto entre o mar e a área interna do porto.
Vista aérea do Porto do Pecém, no Ceará (Crédito: divulgação/SDE Ceará)

Mas conflitos desse tipo têm se tornado comuns em regiões que atraíram grandes investimentos em data centers. À medida que essas estruturas crescem em tamanho e consumo de recursos, aumentam também os questionamentos sobre água, energia e poluição sonora – os sistemas de refrigeração fazem um barulho constante. 

Em Querétaro, no México, a expansão acelerada do setor coincidiu com uma crise hídrica que deixou milhões de pessoas sob algum tipo de restrição de água. Moradores passaram a questionar o consumo dos novos empreendimentos. 

A Holanda viveu uma discussão semelhante em 2022, quando um projeto da Meta foi barrado após críticas sobre o uso de terras agrícolas, energia e água. O caso acabou se transformando em um debate nacional sobre os limites da expansão do setor. 

Ou seja: o Pecém condensa, em um único endereço, todos os atributos que tornam o Brasil atraente para o setor. E também as disputas locais que essa atratividade implica.

Fonte: InvestNews | Foto: Reprodução

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