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A Bravo Mining Corp quer transformar o projeto Luanga, na Província Mineral de Carajás (PA), em uma operação verticalizada, que vai da lavra à produção de liga metálica, sem passar pela venda de concentrado. É o que mostra o estudo de pré-viabilidade (PFS) independente do depósito de paládio, platina, ródio, ouro e níquel, divulgado nesta semana, que aponta valor presente líquido (VPL) após impostos de cerca de R$ 7,5 bilhões (US$ 1,45 bilhão), a uma taxa de desconto de 8%, e taxa interna de retorno (TIR) após impostos de 35,1%. O payback é de dois anos após o fim da construção, para uma vida útil de mina de 9,6 anos.
O capex pré-produção foi estimado em cerca de R$ 4 bilhões (US$ 784,9 milhões), dos quais R$ 3,1 bilhões para mina e usina de beneficiamento e R$ 935 milhões para a fundição. O capex de sustentação ao longo da vida da mina soma aproximadamente R$ 505 milhões (US$ 98,2 milhões), e o fechamento de mina, outros R$ 130 milhões. A relação VPL/capex ficou em 1,65 vez. O custo caixa C1 médio no período é de R$ 2.460 por onça (US$ 478/oz), e o custo de sustentação total (AISC), de R$ 3.640 por onça (US$ 706/oz), ambos referidos à onça 4E, que agrega paládio, platina, ródio e ouro. Ao longo da operação, o projeto deve gerar receita líquida de cerca de R$ 43 bilhões, Ebitda de R$ 21,6 bilhões, com margem de 50%, e fluxo de caixa livre não descontado de R$ 14,5 bilhões.
As estimativas de custo estão no padrão AACE classe 4, com precisão entre 20% para menos e 30% para mais, e incluem contingência de 15%. O modelo usa preços de longo prazo que resultam em uma cesta de US$ 1.798 por onça 4E, com o ródio a US$ 8.000 por onça. O preço dos metais é, de longe, a variável mais sensível: uma queda de 30% reduziria o VPL a cerca de R$ 415 milhões, enquanto a mesma variação no capex o manteria acima de R$ 6,3 bilhões.
Reserva e conversão de recursos
O PFS estabelece a primeira reserva mineral de Luanga. As reservas provadas e prováveis somam 86,7 milhões de toneladas a um teor de 2,77 g/t de paládio equivalente (PdEq), totalizando 7,73 milhões de onças de PdEq contidas, com teor de corte de 0,87 g/t PdEq, recuperação de lavra de 95% e diluição de 7%. As reservas provadas respondem por 17,7 milhões de toneladas, e as prováveis, por 69 milhões.
A reserva foi convertida exclusivamente a partir dos recursos medidos e indicados da estimativa de fevereiro de 2025, que soma 158 milhões de toneladas a 2,04 g/t PdEq, ou 10,4 milhões de onças, sem incorporação de recursos inferidos, que totalizam outros 78 milhões de toneladas e 5 milhões de onças. A taxa de conversão ficou em 55% em tonelagem e em 74% em conteúdo metálico equivalente, diferença que indica que o plano de lavra priorizou as porções de maior teor do depósito. O material oxidado também ficou de fora, porque exigiria uma planta dedicada.
Há espaço para crescimento. A campanha de 2026 prevê 81 furos e 22,1 mil metros de sondagem de adensamento (infill) e de expansão, dos quais 69 furos e 19,2 mil metros já foram concluídos, e nada disso está refletido na reserva. Segundo a empresa, a zona sulfetada principal já foi reconhecida a quase 350 metros de profundidade no setor Central, e a mineralização continua aberta em profundidade ao longo de praticamente todos os 8,1 km de extensão do complexo.
Lavra e produção
A lavra será a céu aberto, em três cavas, com operação de caminhões e escavadeiras terceirizada. Ao longo da vida útil, serão movimentadas 662,8 milhões de toneladas, com relação estéril/minério média de 6,6 para 1 e pico de 81,4 milhões de toneladas por ano. A usina de beneficiamento chega à capacidade nominal de 10 milhões de toneladas por ano, ou 27,4 mil toneladas por dia, ao fim do primeiro ano, com média de 8,7 milhões de toneladas processadas por ano.
Em regime, Luanga deve produzir em média, por ano, 208,9 mil onças de paládio, 150,7 mil onças de platina, 16,1 mil onças de ródio, 18,1 mil onças de ouro e 9,8 mil toneladas de níquel pagáveis, ou cerca de 394 mil onças 4E. O paládio responde pela maior parte do volume de metais preciosos, mas a platina tem participação expressiva, e o ródio, embora pouco representativo em onças, tem peso relevante na receita pelo preço unitário elevado.

Metalurgia
A rota de beneficiamento combina britagem em dois estágios, prensa de rolos de alta pressão (HPGR), moinho de bolas e moinho vertical, seguidos de flotação em células Jameson. O circuito foi definido a partir de uma campanha de ensaios de variabilidade e de ciclo fechado conduzida pelo laboratório Base Metallurgical, do grupo Intertek, com revisão e verificação independente da Glencore Technology. As recuperações previstas são de 82% no paládio, 80% na platina, 55% no ródio, 88% no ouro e cerca de 71% no níquel, com recuperação global 4E de 80,1%, gerando um concentrado misto de sulfeto de níquel e metais do grupo da platina (PGM) com cerca de 100 g/t de PGM mais ouro e 7% de níquel.

Os rejeitos serão dispostos em barragem convencional, com alteamento a jusante, seguindo a regulamentação brasileira e alinhada ao padrão internacional GISTM. A empresa justifica a escolha por topografia, distância de comunidades, volume e características do rejeito. O arranjo inclui ainda pilhas de estéril, pilhas de estoque de minério e uma barragem de água.
Fundição na ZPE de Barcarena
O ponto central do estudo é a decisão de não comercializar o concentrado. O cenário-base prevê uma fundição de propriedade e operação da própria Bravo na Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Barcarena, no porto de Vila do Conde, a cerca de 600 km da mina. O processo pirometalúrgico inclui ustulação para retirada do enxofre, fusão em forno elétrico a arco, conversão e atomização, gerando uma liga com cerca de 10% da massa do concentrado, que reúne PGM, ouro e níquel. As recuperações assumidas na fundição são de 98% para os metais 4E e 90% para o níquel. Como subproduto, a planta deve gerar 878 mil toneladas de ácido sulfúrico ao longo da operação, destinadas a fabricantes de fertilizantes.
A redução de dez para um na massa transportada diminui a exposição ao frete marítimo, e a liga seguiria para refino na Europa. A autorização do Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportação (CZPE), publicada em 1º de setembro por meio da Resolução CZPE/MDIC nº 128, garante à subsidiária Bravo Metals por 20 anos a suspensão de tributos federais sobre máquinas, insumos e serviços, com conversão em alíquota zero ou isenção após o cumprimento dos compromissos, além de isenção de ICMS nas compras. Só pela antecipação da integração, a empresa calcula economia de R$ 465 milhões no capex da fundição. O modelo considera ainda o benefício da Sudam, com redução de 75% do imposto de renda por dez anos, o que leva a alíquota efetiva no período a 15,25%, embora o incentivo dependa de pedido e aprovação. Os royalties, somando CFEM e os devidos à Vale, ao BNDES e ao superficiário, chegam a R$ 4 bilhões.
“O PFS valida a estratégia que temos desenvolvido há mais de dois anos: integrar verticalmente o projeto Luanga no Brasil”, afirmou Luis Azevedo, presidente do conselho e CEO da Bravo. De acordo com o executivo, os indicadores do projeto e os benefícios da ZPE compensam amplamente o capital adicional exigido pela fundição. Azevedo observa que, na indústria global de PGM, a integração vertical por meio da fundição e do processamento subsequente é, em grande medida, a norma, e que a mudança reduz a exposição da empresa às taxas de tratamento cobradas por terceiros e aos custos de logística internacional. Ele também destacou o alinhamento com a agenda brasileira de minerais críticos, que prioriza o processamento interno e a agregação de valor em vez da exportação de produtos minerais sem beneficiamento.
Licenciamento e etapas que faltam
A licença prévia foi concedida pela Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas) em março de 2025, após aprovação do EIA/Rima e das audiências públicas. O PFS fornece a base técnica para o pedido de licença de instalação, que a empresa pretende protocolar até o fim de 2026 e cuja consultoria ambiental responsável já foi contratada. A licença de operação só vem depois da construção. A autorização da ZPE, por sua vez, não substitui o licenciamento ambiental da fundição.

Os próximos passos incluem o protocolo do relatório técnico do PFS em até 45 dias, a atualização da estimativa de recursos no primeiro trimestre de 2027, a próxima fase de engenharia e o estudo de viabilidade definitivo (DFS), que antecede a decisão final de investimento. A empresa não divulgou datas para essas duas etapas. No pico, a necessidade de financiamento do projeto é estimada em R$ 4,5 bilhões (US$ 877 milhões). A Bravo tinha cerca de R$ 485 milhões (US$ 94,1 milhões) em caixa em 30 de junho, valor que, segundo a companhia, cobre com folga o trabalho até a decisão de investimento.
O estudo também deixa de fora potenciais ganhos adicionais. Os ensaios metalúrgicos indicam recuperação de 89% a 95% do cobre presente no minério, que hoje não entra na receita e poderia render entre R$ 150 milhões e R$ 220 milhões por ano. Uma frota própria de lavra poderia reduzir o custo unitário de mineração em até 43%, com capex adicional de cerca de R$ 470 milhões, e a capacidade ociosa da fundição abre espaço para processar concentrados de terceiros. Fora do depósito principal, as descobertas de cobre e ouro do tipo IOCG na área do projeto também não foram consideradas.
Fonte: Brasil Mineral | Foto: Reprodução
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