Após investimento de R$ 51,3 milhões, ZPE de Cáceres opera com apenas uma indústria e enfrenta desafio de atrair empresas

Após investimento de R$ 51,3 milhões, ZPE de Cáceres opera com apenas uma indústria e enfrenta desafio de atrair empresas

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A Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Cáceres, inaugurada em outubro de 2025 depois de mais de três décadas de espera, enfrenta o desafio de transformar uma estrutura industrial construída com R$ 51,3 milhões em investimentos públicos em um polo efetivo de produção, exportação e geração de empregos. Com 247 hectares e capacidade para receber dezenas de empreendimentos, o complexo possui apenas uma empresa em operação, enquanto o Governo de Mato Grosso e representantes do setor industrial intensificam as articulações para atrair novos investidores.

A situação da ZPE voltou ao debate econômico nesta terça-feira (3 de novembro), em meio às discussões sobre os efeitos da reforma tributária e as perspectivas de expansão industrial do estado.

A única empresa identificada em funcionamento no complexo é a TRC Agroflorestal, ligada à cadeia produtiva da madeira teca. A atividade representa o início da ocupação da estrutura, mas ainda está distante da diversificação industrial prevista para o empreendimento.

A ZPE de Cáceres ocupa uma área de 247 hectares, dividida em cinco módulos, com 341 lotes industriais. A estrutura dispõe de recinto aduaneiro, áreas administrativas, armazéns e sistemas de controle destinados ao funcionamento de empresas exportadoras.

O alfandegamento foi autorizado pela Receita Federal em março de 2024, permitindo que o complexo avançasse na preparação para suas operações.

A implantação da ZPE tem uma trajetória marcada por sucessivos atrasos. Criada por decreto presidencial em 1990, a unidade permaneceu paralisada durante décadas em razão de pendências jurídicas, financeiras e estruturais relacionadas à empresa administradora e à ausência das instalações necessárias ao funcionamento.

A partir de 2019, o Governo do Estado iniciou medidas de regularização administrativa, jurídica e contábil, processo concluído em 2023. A inauguração ocorreu em 24 de outubro de 2025, com investimento estadual de R$ 51,3 milhões.

O objetivo da ZPE é oferecer condições diferenciadas para a instalação de indústrias voltadas ao mercado externo, com mecanismos tributários, aduaneiros e administrativos previstos na legislação federal.

O modelo permite que empresas exportadoras tenham acesso a tratamentos específicos para a aquisição de máquinas, equipamentos e insumos, observadas as condições legais aplicáveis às operações.

A proposta econômica é estimular o processamento industrial de produtos que, em muitos casos, deixam Mato Grosso com baixo grau de transformação, ampliando a possibilidade de agregação de valor antes da exportação.

No setor agropecuário, por exemplo, a industrialização pode envolver processamento de soja, beneficiamento de produtos de origem animal e outras atividades capazes de ampliar a cadeia de fornecedores e serviços especializados.

Entretanto, a instalação de novas empresas depende de projetos economicamente viáveis, disponibilidade de infraestrutura, autorizações administrativas, licenciamento ambiental e decisões efetivas de investimento.

Em outubro, representantes do Governo de Mato Grosso, da Federação das Indústrias de Mato Grosso (Fiemt) e da administração da ZPE participaram de uma agenda voltada à divulgação das vantagens do complexo.

O presidente da administradora da ZPE de Cáceres, Francis Maris Cruz, informou que existem conversas com empresários interessados em atividades ligadas à produção de mel, frigoríficos de aves, beneficiamento de mármore e processamento de soja.

Essas negociações ainda não representam confirmação de novas fábricas em funcionamento. Também não foram apresentados valores consolidados de investimentos privados contratados, número de empregos previstos ou cronograma definitivo para a ocupação dos lotes.

A expectativa divulgada pela administração é de que novos empreendimentos possam começar a se instalar a partir de 2027.

A localização geográfica é apontada como um dos fatores de competitividade da ZPE. Cáceres está situada na região oeste de Mato Grosso, próxima à fronteira com a Bolívia, posição que pode favorecer conexões comerciais com países sul-americanos.

O aproveitamento dessa vantagem, porém, depende das condições reais de transporte, dos custos logísticos, da infraestrutura de acesso e da capacidade de integração com os mercados consumidores.

Outro fator acompanhado pelos gestores é a reforma tributária brasileira. O novo sistema de tributação sobre o consumo prevê mudanças graduais que poderão alterar a estrutura de custos e os incentivos aplicáveis às atividades econômicas.

Para empresas exportadoras, a manutenção de mecanismos de desoneração das exportações e a definição das regras de funcionamento das zonas de processamento são aspectos importantes para o planejamento dos investimentos.

A reforma, entretanto, não assegura automaticamente a instalação de indústrias. A decisão empresarial continuará dependendo de fatores como demanda internacional, disponibilidade de matéria-prima, financiamento, energia, logística e rentabilidade dos projetos.

Do ponto de vista social, a ocupação da ZPE poderá ampliar a demanda por trabalhadores em atividades industriais, administrativas, logísticas e de manutenção, além de estimular serviços associados à operação das empresas.

Não há, contudo, dados atualizados suficientes para calcular quantos empregos foram efetivamente gerados até agora pelo complexo ou quantos novos postos de trabalho poderão surgir com os projetos em negociação.

A situação também apresenta uma questão relevante para a gestão pública: o retorno econômico e social de um investimento de R$ 51,3 milhões depende da utilização efetiva da infraestrutura construída.

A existência de 341 lotes industriais demonstra a dimensão da capacidade física disponível, mas não permite calcular uma taxa de ocupação precisa sem informações sobre a distribuição dos lotes e a área utilizada pela empresa instalada.

A próxima etapa será acompanhar a transformação das negociações anunciadas em contratos, obras de implantação e operações industriais efetivas.

Para Cáceres e a região oeste, a expansão da ZPE representa uma possibilidade de diversificação econômica, com maior participação da indústria no aproveitamento da produção regional.

Mais de um ano após a inauguração, o desafio permanece: transformar a estrutura financiada pelo poder público em atividade produtiva capaz de gerar exportações, empregos e renda de maneira contínua.

Fonte: JB News | Foto: Reprodução

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