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A indústria brasileira e o paradoxo da inércia
Por Marcelo Kieling
O país que poderia liderar a Quarta Revolução Industrial prefere assistir de camarote enquanto o mundo se reorganiza. Enquanto o planeta redefine suas cadeias produtivas e acelera a incorporação da Inteligência Artificial (IA), o Brasil insiste em não ter uma política industrial estruturada, abandona as Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs) e trata a inovação como pauta secundária. O custo dessa omissão é a perpetuação do subdesenvolvimento.
O Brasil vive um paradoxo incômodo. De um lado, dispõe de matriz energética limpa, parque científico consolidado, mercado interno robusto e posição estratégica no comércio global. De outro, assiste passivamente ao esvaziamento da sua base industrial — fenômeno documentado por décadas de dados do IBGE e da Confederação Nacional da Indústria (CNI) — sem que o Estado apresente uma política coerente de reversão. Não se trata de falta de instrumentos; faltam diagnóstico compartilhado e vontade política.
O custo da ausência de política industrial
A participação da indústria de transformação no PIB brasileiro encolheu despencou de cerca de 36% em meados dos anos 1980 para aproximadamente 10,8% atualmente. Esse processo de desindustrialização precoce não é fruto de fatalidade econômica, mas de escolhas — ou da ausência delas. O país abandonou mecanismos clássicos de fomento sem substituí-los por ferramentas compatíveis com o século XXI. O resultado é uma economia cada vez mais dependente da exportação de commodities e da importação de bens de maior valor agregado.
A agenda de neoindustrialização anunciada nos últimos anos produziu mais diagnósticos do que entregas. Faltam coordenação entre os entes federativos, continuidade administrativa e, sobretudo, um entendimento de que política industrial não se confunde com protecionismo — trata-se de planejamento estratégico com metas verificáveis, prazos definidos e accountability.
ZPEs: o instrumento que o Brasil insiste em ignorar
As Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs) são regimes aduaneiros especiais que combinam desoneração tributária e simplificação burocrática para estimular o investimento e a geração de empregos. Mais de 140 países as utilizam com sucesso — da China a Portugal, do Vietnã aos Emirados Árabes Unidos. O Brasil criou o seu marco legal ainda nos anos 1980, regulamentou a matéria e estruturou uma secretaria administrativa dentro do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), mas o programa segue implementado com o “freio de mão puxado”.
Hoje, há 13 ZPEs autorizadas por lei, mas somente quatro estão em funcionamento após quase quatro décadas. O entrave não é meramente técnico; é sobretudo político. A implementação das ZPEs exige coordenação fina entre o MDIC, o Ministério da Fazenda (Receita Federal) e os governos estaduais.
Além disso, o projeto enfrenta resistência de setores que se sentem equivocadamente ameaçados pela concorrência das empresas instaladas nesses distritos, caso vendam parte de sua produção no mercado interno — ainda que essa operação exija o pagamento integral de todos os tributos devidos. Perde-se de vista o ganho de longo prazo: exportações de maior valor agregado, inserção em cadeias globais de valor e atração de Investimento Estrangeiro Direto (IED).
A paralisia das ZPEs é o símbolo mais acabado da incapacidade brasileira de executar políticas industriais consistentes. O instrumento existe, o interesse privado é real e o potencial exportador é evidente. Falta coordenação para arrumar a casa.
Inteligência Artificial: a engrenagem perdida do desenvolvimento
Enquanto economias centrais e emergentes disputam a dianteira na incorporação da Inteligência Artificial aos seus processos produtivos, o Brasil trata o tema como pauta de nicho. Não há uma política pública estruturada que vincule o desenvolvimento da IA à reindustrialização nacional.
A IA generativa e os sistemas de aprendizado de máquina (machine learning) representam para a indústria contemporânea o que a eletricidade representou no início do século XX: uma tecnologia de propósito geral capaz de elevar a produtividade em todas as cadeias. Países como Alemanha, Japão e Coreia do Sul já integram a IA à manufatura avançada por meio de manutenção preditiva, controle de qualidade automatizado, otimização logística e design generativo de produtos.
O Brasil, que forma milhares de engenheiros e cientistas da computação por ano, possui um dos maiores mercados digitais do mundo e já demonstrou competência em setores como agronegócio de precisão e fintechs, simplesmente não conecta esses pontos. A IA aparece em discursos e menções periféricas, mas nunca como eixo de uma política industrial integrada.
Faltam incentivos fiscais para a adoção de IA por pequenas e médias empresas (PMEs) industriais, faltam centros de pesquisa aplicada em parceria com o setor privado e falta um programa nacional de requalificação da força de trabalho para a nova realidade produtiva. A inteligência artificial não é tratada como ferramenta de desenvolvimento, mas como tema de conferência.
Por que a política não avança?
Há razões estruturais e conjunturais para essa paralisia:
1. Horizonte eleitoral curto: Políticas industriais maduras demandam prazos de dez a vinte anos, o que colide com ciclos políticos de quatro anos e com a descontinuidade administrativa crônica da gestão pública brasileira.
2. Fragmentação do Estado: A política industrial no país é disputada por ministérios, agências, bancos de fomento e conselhos setoriais que raramente falam a mesma língua. Sem uma instância central de coordenação com poder decisório real, as iniciativas se multiplicam sem convergência.
3. Captura ideológica do debate: O cenário é dominado por visões antagônicas e igualmente insuficientes. De um lado, o protecionismo que confunde política industrial com reserva de mercado; de outro, o liberalismo de manual que reduz o papel do Estado à mera arbitragem regulatória. Nenhuma das correntes oferece um projeto viável para a indústria do século XXI.
4. Ausência de pressão social: A desindustrialização não mobiliza as ruas, não pauta debates eleitorais e não move bancadas parlamentares com a mesma força que as pautas distributivas. Sem demanda social organizada, a inércia prevalece.
O caminho para a ruptura
O Brasil precisa romper o ciclo de diagnósticos sem execução. Uma política industrial moderna para o século XXI deve combinar quatro pilares fundamentais:
Operacionalização imediata das ZPEs: Utilizá-las como porta de entrada para a integração competitiva do país nas cadeias globais de valor para aumentar o valor agregado das nossas exportações ao desonerar a cadeia produtiva, permitindo que matérias-primas básicas sejam transformadas em produtos industriais ou tecnológicos acabados antes de sair do país, impulsionando a participação brasileira nas cadeias globais de valor.
Difusão de Inteligência Artificial na indústria: Implementar incentivos fiscais direcionados, estruturar redes de centros de tecnologia aplicada e promover a requalificação massiva da força de trabalho.
Governança centralizada: Criar uma instância de coordenação com mandato plurianual e recursos vinculados, blindada contra descontinuidades políticas.
Métricas e transparência: Estabelecer metas públicas de progresso, com relatórios anuais submetidos ao Congresso Nacional e à sociedade civil.
O custo de não fazer nada é conhecido: continuaremos exportando grãos e importando inteligência. O custo de agir é exigente, mas o Brasil já demonstrou, em outros momentos de sua história, que é capaz de fazer escolhas estratégicas quando a sociedade se mobiliza.
A pergunta que fica é: esperaremos até quando?
Precisamos mudar o Brasil. Vamos?
Fonte: Komunica | Foto: Reprodução
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