Data Centers & ZPEs: o nexo virtuoso

Data Centers & ZPEs: o nexo virtuoso

Tempo de leitura: 26 minutos

DATA CENTERS & ZPES: O NEXO VIRTUOSO
(Uma perspectiva de Green Powershoring & Green Watershoring)

Autores:
Helson Braga, Ph.D.
Associação Brasileira de Zonas de Processamento de Exportação – ABRAZPE E-mail: helson.braga@abrazpe.org.br e
Raul Gouvea, Ph.D.
Global & National Security Policy Institute – University of New Mexico, EUA E-mail: rauldg@unm.edu

8 de setembro de 2026

I  – INTRODUÇÃO

Em 2026, a economia digital consolidou-se como uma das principais forças de transformação da economia mundial. A difusão acelerada de tecnologias disruptivas como Inteligência Artificial (IA), computação em nuvem, Internet of Things (IoT), blockchain, robótica e automação está alterando estruturas produtivas, modelos de negócios, padrões de consumo e formas de organização do trabalho.

Os Data Centers ocupam posição estratégica nesse processo. Eles constituem a infraestrutura física que sustenta grande parte da economia digital: armazenam, processam e distribuem dados e aplicações, dão suporte aos serviços de Cloud Computing e, cada vez mais, fornecem a capacidade computacional necessária ao treinamento e à operação de modelos de IA.

A expansão da IA introduziu, contudo, uma nova dimensão à competição internacional. A disponibilidade de chips e servidores de alto desempenho continua importante, mas energia elétrica, capacidade de conexão, água para resfriamento, terrenos, redes de transmissão, fibra óptica, segurança cibernética, estabilidade regulatória e acesso a capital passaram a ser fatores igualmente determinantes para a localização de Data Centers.

A questão central deste artigo é, portanto, locacional: quais países e regiões estão em melhores condições para receber a próxima onda de investimentos em Data Centers, particularmente os associados a cargas computacionais intensivas em IA? A hipótese aqui desenvolvida é que regiões que combinem abundância e confiabilidade energética, elevada participação de fontes renováveis, disponibilidade hídrica, infraestrutura digital e ambiente institucional competitivo tendem a adquirir vantagem comparativa e competitiva.

Essa perspectiva permite aproximar a economia digital de dois conceitos: Green Powershoring, associado à localização de atividades intensivas em energia em regiões que oferecem energia abundante, competitiva e de baixa intensidade de carbono; e Green Watershoring, associado à localização de atividades intensivas em água em regiões com disponibilidade hídrica, governança e segurança hídrica adequadas.

O Brasil reúne características particularmente favoráveis nas duas dimensões. O país dispõe de uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo e de cerca de 12% da água doce superficial do planeta. Entretanto, essa vantagem natural não é suficiente por si só: ela precisa ser convertida em vantagem competitiva por meio de infraestrutura, regulação, conectividade, qualificação profissional, governança ambiental e segurança jurídica.

A economia digital e a nova infraestrutura estratégica

A inteligência artificial está ampliando a demanda por capacidade computacional em ritmo muito superior ao observado em aplicações digitais tradicionais. Segundo a UNCTAD, o mercado global de IA, estimado em US$ 189 bilhões em 2023, poderá alcançar aproximadamente US$ 4,8 trilhões em 2033. A organização ressalta que infraestrutura, dados e competências são três dos principais fatores necessários para que os países capturem os benefícios econômicos da IA.

A dimensão econômica da IA também é expressiva. A PwC estima que a IA poderá adicionar até US$ 15,7 trilhões à economia mundial em 2030. Esses números não devem ser interpretados como previsões exatas, mas como indicadores da escala potencial da transformação econômica e, consequentemente, da infraestrutura digital que será necessária para sustentá-la.

Pilares da competitividade digital

Para transformar a expansão da economia digital em desenvolvimento econômico, os países precisam combinar um conjunto de capacidades. Entre os principais pilares estão:

  • infraestrutura digital robusta, resiliente e escalável;
  • disponibilidade de mão de obra qualificada e competências digitais;
  • ambiente competitivo de Tecnologia da Informação e Comunicação (ICT);
  • acesso a financiamento e desenvolvimento de instrumentos de finanças digitais;
  • regulação digital previsível e proporcional ao risco;
  • capacidade de inovação, pesquisa e desenvolvimento;
  • adoção de tecnologias digitais pela indústria e pelos serviços;
  • capacidade em Inteligência Artificial, analytics, Cloud Computing, IoT, blockchain, robótica e automação; e
  • segurança cibernética, proteção de dados e governança digital.

II  – A EXPANSÃO DOS DATA CENTERS: ENERGIA, ÁGUA E INFRAESTRUTURA

Data Centers estão se tornando uma das principais novas fontes de demanda por eletricidade. A IEA estima que o consumo mundial de eletricidade dos Data Centers tenha sido de aproximadamente 485 TWh em 2025 e projeta que esse consumo se aproxime de 950 TWh em 2030, praticamente dobrando em cinco anos. Isso corresponde a cerca de 3% da demanda mundial de eletricidade em 2030.

A IEA também estima que a eletricidade consumida por Data Centers cresça cerca de 15% ao ano entre 2024 e 2030, ritmo mais de quatro vezes superior ao crescimento do consumo de eletricidade dos demais setores. Os servidores acelerados, associados principalmente à expansão da IA, são o componente de crescimento mais rápido.

O gargalo energético

O desafio não se limita à quantidade de eletricidade disponível no sistema. Data Centers precisam de energia firme, de alta qualidade, confiável e conectada à rede em prazo compatível com a implantação dos empreendimentos. Enquanto um Data Center pode ser construído em poucos anos, linhas de transmissão, subestações e outras infraestruturas do sistema elétrico frequentemente exigem prazos de planejamento, licenciamento e construção significativamente maiores.

Esse descasamento entre a velocidade da demanda digital e a velocidade de expansão da infraestrutura energética é um dos principais bottlenecks da nova economia de IA. Em consequência, a disponibilidade de energia e de capacidade de conexão passou a ser um dos critérios centrais de site selection para novos Data Centers.

A IEA projeta que, no cenário-base, as fontes renováveis responderão por quase metade da eletricidade adicional necessária para atender à expansão global dos Data Centers até 2030. Gás natural e carvão continuarão presentes em diferentes mercados, enquanto a energia nuclear deverá ganhar importância ao longo do período.

A corrida por energia também está estimulando novas formas de contratação. Power Purchase Agreements (PPAs), geração dedicada, armazenamento, microgrids e soluções híbridas estão se tornando instrumentos relevantes para garantir previsibilidade de suprimento e reduzir a pegada de carbono.

Energia nuclear e segurança energética

A expansão dos Data Centers também recolocou a energia nuclear no centro do debate sobre segurança energética. Um exemplo emblemático é o acordo de compra de energia de 20 anos entre Microsoft e Constellation, que viabiliza a retomada da unidade 1 da usina nuclear anteriormente conhecida como Three Mile Island e rebatizada de Crane Clean Energy Center. A unidade deverá recolocar 835 MW de capacidade livre de emissões de carbono na rede regional.

Além das usinas convencionais, Small Modular Reactors (SMRs) vêm sendo considerados para atendimento de cargas industriais e digitais de grande porte. Entretanto, sua adoção em escala comercial depende de avanços regulatórios, tecnológicos, financeiros e de licenciamento. Portanto, para a próxima década, fontes renováveis, rede elétrica, armazenamento, gás natural e nuclear deverão coexistir em diferentes combinações.

A dimensão hídrica

A água constitui o segundo grande recurso estratégico para a localização de Data Centers. Sistemas de resfriamento podem demandar volumes significativos de água, especialmente em instalações de grande porte. A escolha tecnológica depende do clima, da densidade computacional, da disponibilidade hídrica e dos requisitos de eficiência energética.

Soluções híbridas, resfriamento a ar, liquid cooling e immersion cooling ampliam o leque tecnológico, mas não eliminam a necessidade de avaliar segurança hídrica, qualidade da água, disponibilidade local, infraestrutura de abastecimento, tratamento e possibilidade de reúso.

A discussão deve ser conduzida a partir do conceito de water footprint. A expansão dos Data Centers não pode transferir para comunidades locais os custos ambientais de seu consumo hídrico. Assim, projetos devem incorporar metas de eficiência, monitoramento, reúso e resiliência hídrica, em articulação com a governança de recursos hídricos.

O efeito da concentração geográfica

O impacto energético dos Data Centers é ampliado quando os empreendimentos se concentram em clusters. A existência de vários grandes consumidores em uma mesma região pode pressionar a rede de transmissão e distribuição, elevar a necessidade de investimentos em capacidade e aumentar os custos sistêmicos.

O fenômeno já produz respostas regulatórias em diversos mercados. Nos Estados Unidos, por exemplo, o crescimento das solicitações de conexão de Data Centers passou a provocar debates sobre a capacidade real dos projetos, planejamento de rede e repartição dos custos de infraestrutura. Esse movimento reforça a importância de planejamento integrado entre desenvolvedores de Data Centers, utilities, operadores de rede e governos.

III  – GREEN POWERSHORING & GREEN WATERSHORING

A localização dos Data Centers pode ser analisada a partir de uma adaptação do modelo de Heckscher-Ohlin. Regiões dotadas de determinados factor endowments — neste caso, energia, água, infraestrutura digital, terrenos e competências — podem apresentar vantagens comparativas para atividades intensivas nesses fatores.

No caso dos Data Centers, a vantagem não decorre apenas de energia abundante ou água abundante, isoladamente. O diferencial está na combinação entre abundância, qualidade, custo, confiabilidade, sustentabilidade e capacidade institucional de administrar esses recursos.

É nesse contexto que se propõe o conceito de Green Powershoring-intensive regions: regiões capazes de oferecer energia abundante, confiável e competitiva, com elevada participação de fontes renováveis e baixa intensidade de carbono. Paralelamente, Green Watershoring-intensive regions são aquelas que combinam disponibilidade hídrica com governança, infraestrutura e segurança para o uso sustentável da água.

A combinação dos dois fatores pode produzir um verdadeiro círculo virtuoso: energia limpa e abundante reduz a carbon footprint dos Data Centers; água disponível e bem gerida reduz riscos operacionais; infraestrutura digital e conectividade reduzem custos de rede; e um ambiente regulatório previsível reduz riscos de investimento.

O Brasil: uma combinação singular de factor endowments

O Brasil apresenta uma combinação particularmente favorável de energia renovável e recursos hídricos. Dados do Balanço Energético Nacional 2026, ano-base 2025, mostram que as fontes renováveis representaram 86,8% da oferta interna de energia elétrica brasileira em 2025. A fonte hidráulica respondeu por 52,2% dessa oferta, enquanto eólica e solar fotovoltaica ganharam participação rapidamente.

Em 2025, a geração solar fotovoltaica alcançou 88,1 TWh e a geração eólica 116,5 TWh. A capacidade instalada de geração elétrica, sem considerar micro e minigeração distribuída, atingiu 215.939 MW. Esses números demonstram que a vantagem energética brasileira é dinâmica e está sendo ampliada pela expansão das fontes eólica e solar.

Na dimensão hídrica, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional e a ANA reiteram que o Brasil reúne cerca de 12% da disponibilidade de água doce do planeta. Essa abundância, entretanto, é espacialmente desigual e não deve ser confundida com disponibilidade irrestrita para qualquer finalidade. Para Data Centers, a vantagem hídrica somente se transforma em vantagem competitiva quando acompanhada de planejamento, outorga, infraestrutura, reúso e governança.

Por que o Brasil pode tornar-se um hub de Data Centers

A combinação de energia renovável, recursos hídricos, mercado consumidor de grande escala, posição geográfica, conectividade internacional e experiência em digitalização cria condições favoráveis para o Brasil ampliar sua participação na indústria global de Data Centers.

O país já apresenta um ecossistema digital relevante, com forte adoção de serviços bancários digitais, comércio eletrônico, serviços públicos digitais e computação em nuvem. A presença de cabos submarinos e de importantes pontos de conectividade, especialmente no Nordeste, constitui uma vantagem adicional.

A oportunidade, entretanto, é maior do que simplesmente ampliar a capacidade de colocation. O objetivo estratégico deve ser atrair Data Centers associados à IA, Cloud Computing, highperformance computing e serviços digitais exportáveis. Isso pode contribuir para transformar infraestrutura digital em plataforma de exportação de serviços de maior valor agregado.

A existência de uma matriz elétrica predominantemente renovável também pode ajudar empresas globais a cumprir metas de Net Zero, desde que a contabilização das emissões e a forma de contratação da energia sejam compatíveis com padrões internacionais de sustentabilidade.

IV  – O NEXO VIRTUOSO: ZPES & DATA CENTERS

As ZPEs (e, mais genericamente, as Zonas Econômicas Especiais) são um dos mecanismos mais utilizados no mundo para estimular investimentos voltados predominantemente para as exportações. Segundo a UNCTD, existem atualmente cerca de 7000 zonas francas, espalhadas por quase150 países. Elas foram criadas no Brasil no final dos anos 80 com foco nas exportações de mercadorias. Porém, uma lei de 2021 permitiu que empresas fornecedoras de serviços também pudessem se instalar nas ZPEs, abrindo o espaço para a implantação de Data Centers nesses recintos incentivados.

As empresas instaladas em ZPE (Data Centers, inclusive) gozam de benefícios tributários, aduaneiros e administrativos, tanto na importação como na aquisição no mercado interno de insumos e bens de capital, pelo prazo (prorrogável) de 20 anos. Além disso, não estão sujeitas à lei de similaridade nacional, nem a contrapartidas por conta do acesso a esses incentivos. Ressalte-se que estes incentivos foram devidamente preservados pela recente reforma tributária, inscrita na Constituição Federal. Apresentam, portanto, a segurança jurídica indispensável para a concretização de investimentos bilionários, como tendem a ser os Data Centers.

Existem 13 ZPEs autorizadas no Brasil, sendo que quatro delas já se encontram em operação e duas outras devem entrar um funcionamento ainda este ano. Há meia dúzia de projetos em processo de análise, fazendo supor que teremos duas dezenas de ZPEs até o final do próximo ano, sendo pelo menos a metade em funcionamento.

Resumidamente,as ZPEs apresentam as seguintes vantagens para a implantação de Data Centers no Brasil:

  • Tendem a ser localizadas/projetadas próximas a portos e complexos eólicos, solares, hidrelétricos e projetos de hidrogênio verde, favorecendo estratégias de Green Powershoring.

Agregam, portanto, atributos regulatórios indispensáveis para complementar estas vantagens locacionais para a implantação de Data Centers;

  • São áreas relativamente extensas, capazes de acomodar grandes projetos e suas futuras expansões – que é especialmente relevante para Data Centers, cuja escala tende a crescer ao longo do tempo;
  • Especialmente, as ZPEs localizadas no Nordeste estão próximas a hubs de telecomunicações e apresentam conectividade redundante, baixa latência e múltiplas rotas de fibra ótica;
  • Como o processo de aprovação de ZPEs requer planejamento territorial e licenciamento, pode-se incorporar, desde o início, variáveis de risco climático, disponibilidade hídrica e resiliência da infraestrutura (energia confiável, com capacidade de conexão, redundância e qualidade compatíveis com cargas críticas); e
  • A proximidade de universidades, centros de pesquisa, parques tecnológicos e provedores de Cloud e telecomunicações pode fortalecer o ecossistema digital associado ao Data Center.

O caso da ZPE Ceará

A ZPE Ceará, integrada ao Complexo Industrial e Portuário do Pecém, é um exemplo relevante de como uma ZPE pode combinar área industrial, infraestrutura portuária, energia e conectividade. Sua poligonal foi ampliada para 6.182,44 hectares, após a incorporação de 1.911,04 hectares que haviam sido destinados a uma refinaria da Petrobras, que não foi adiante.

A região de Fortaleza também se destaca pela conectividade internacional por cabos submarinos e pela crescente disponibilidade de fontes renováveis no Nordeste. Esses fatores tornam o Ceará particularmente bem posicionado para disputar projetos digitais que valorizem energia renovável e conectividade de baixa latência.

A convergência entre ZPEs, energia renovável, hidrogênio verde e Data Centers é particularmente promissora. Projetos de hidrogênio verde demandam grande quantidade de eletricidade renovável e podem contribuir para o desenvolvimento de novas infraestruturas de transmissão e geração. Essa infraestrutura, quando planejada de forma integrada, pode beneficiar outros consumidores eletro-intensivos. 

V  – REDATA E ZPES: DUAS OPÇÕES PARA A IMPLANTAÇÃO DE DATA CENTERS

O Projeto de Lei 278/2026, recentemente aprovado pelo Congresso Nacional (e já encaminhado para sanção presidencial) introduziu o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (REDATA), que criou incentivos para implantação de Data Centers, de uma maneira não essencialmente distinta do que prevê o regime de ZPEs: de certa forma, os dois instrumentos buscam os mesmos objetivos e empregam os mesmos instrumentos. Apresentam as seguintes principais diferenças:

  • Enquanto o REDATA é específico para (serviços) Data Centers, o regime de ZPEs está disponível para qualquer indústria e para vários tipos de serviços (inclusive Data Centers);
  • O REDATA suspende IPI, PIS e Cofins sobre as importações e as aquisições no mercado interno de insumos e bens de capital, enquanto a ZPE suspende também o Imposto de

Importação e o Adicional de Frete para Renovação da Marinha Mercante (AFRMM);

  • A suspensão do Imposto de Importação no REDATA só se aplica aos componentes eletrônicos e de TIC que não tenham similar nacional, enquanto que as importações das empresas em ZPE não estão sujeitas a essa exigência;
  • A ZPE isenta do ICMS as operações realizadas pelas empreses em ZPE, e o REDATA ainda está negociando este incentivo;
  • A fruição dos incentivos das ZPE não tem contrapartidas, enquanto o REDATA obriga a destinação de pelo menos 10% da capacidade de armazenamento ao mercado interno, 2% do valor dos produtos adquiridos em P&D, e índices mínimos de eficiência hídrica e de sustentabilidade;
  • Os incentivos de ZPE são válidos por 20 anos (prorrogáveis) e os do REDATA, por 5 anos;
  • Projetos de colocation em ZPE ainda dependem de ajuste na legislação (a MP que permitia essa operação perdeu validade e não foi ainda restabelecida);
  • A empresa pode utilizar o REDATA em qualquer local, enquanto os incentivos da ZPE só valem para locais pré-determinados (ZPEs, obviamente);
  • A empresa do REDATA pode fornecer o quanto quiser no mercado interno (na verdade, é obrigada a fornecer pelo menos 10%), enquanto as empresas em ZPEs são proibidas de vender no mercado interno; e
  • As empresas em ZPE precisam ter projetos aprovados pelo CZPE (um colegiado interministerial) enquanto as empresas do REDATA só precisam ser habilitadas pela Receita Federal.

Em resumo, os dois mecanismos podem ser utilizados para a implantação de Data Centers, cada um tendo suas vantagens e desvantagens, cabendo a comparação entre eles, em cada caso concreto.

VI  – IMPLICAÇÕES PARA A POLÍTICA PÚBLICA

A transformação das vantagens naturais brasileiras em investimentos concretos exige uma política coordenada. Não basta oferecer incentivos fiscais. Data Centers são projetos de infraestrutura crítica e devem ser tratados como investimentos de longo prazo, com impacto sobre energia, água, telecomunicações, uso do solo, segurança cibernética e desenvolvimento regional. Isso requer, mais especificamente:

  • Planejamento integrado de energia, transmissão, telecomunicações, água e uso do solo nas regiões destinadas à expansão de Data Centers;
  • Identificação de áreas com capacidade elétrica disponível ou com expansão da rede compatível com o cronograma dos projetos;
  • Priorização de fontes renováveis e de soluções de armazenamento e flexibilidade que reduzam a pressão sobre a rede;
  • Adoção de métricas de eficiência hídrica e energética, incluindo Power Usage Effectiveness (PUE) e Water Usage Effectiveness (WUE);
  • Fortalecimento da conectividade internacional e da redundância de cabos e rotas de fibra ótica;
  • Formação de mão-de-obra especializada em IA, Cloud, cibersegurança, engenharia elétrica, refrigeração e operação de Data Centers;
  • Articulação entre ZPEs, universidades, parques tecnológicos e centros de pesquisa;
  • Integração entre REDATA, regime de ZPE e demais instrumentos de política industrial e de desenvolvimento regional; e
  • Adoção de critérios transparentes para mensurar benefícios econômicos, ambientais e fiscais dos incentivos concedidos.

A competição internacional por Data Centers tende a aumentar a oferta de incentivos. Entretanto, incentivos tributários não substituem energia, água, conectividade e segurança jurídica. Um projeto pode ser atraído por um benefício fiscal, mas sua permanência dependerá da qualidade e do custo da infraestrutura.

Por isso, a política brasileira deve priorizar a redução do custo sistêmico de implantação e operação. A melhor estratégia é aquela que combina incentivos temporários e condicionados a resultados com investimentos em infraestrutura permanente.

VII  – CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os Data Centers estão no centro da nova infraestrutura da economia digital e da expansão da Inteligência Artificial. A competição por esses investimentos não se resume mais à oferta de terrenos e incentivos tributários. Energia, água, conectividade, resiliência climática, capital humano, regulação e segurança institucional tornaram-se fatores determinantes.

A perspectiva de Green Powershoring & Green Watershoring oferece uma forma útil de interpretar essa transformação. Regiões capazes de combinar energia renovável e confiável com disponibilidade hídrica e governança ambiental adequada tendem a adquirir vantagem locacional crescente.

O Brasil reúne uma combinação particularmente favorável desses fatores. Em 2025, 86,8% da oferta interna de eletricidade foi de origem renovável, segundo a EPE, e o país detém cerca de 12% da disponibilidade de água doce superficial do planeta. A expansão de eólica e solar reforça essa posição.

O mercado brasileiro de Data Centers já apresenta forte expansão. A JLL registra 106 MW de nova capacidade no primeiro semestre de 2026 e projeta outros 134 MW até dezembro, associados a aproximadamente US$ 8 bilhões em investimentos. A baixa vacância e o crescimento médio de 15% ao ano indicam que o mercado doméstico está em trajetória de expansão.

Nesse cenário, as ZPEs podem exercer papel estratégico. Elas permitem associar as vantagens naturais do território brasileiro a um ambiente territorial, aduaneiro e institucional orientado à atividade produtiva e à exportação. O REDATA, por sua vez, acrescenta um regime setorial específico para Data Centers e, após a aprovação do PL 278/2026 pelo Senado em 1º de setembro de 2026, encontra-se em etapa de sanção.

A oportunidade para o Brasil consiste em transformar a vantagem comparativa natural em vantagem competitiva sustentável. Isso exige uma estratégia nacional que trate Data Centers, energia renovável, conectividade, água, ZPEs, IA e exportação de serviços como elementos de um mesmo ecossistema.

O verdadeiro “nexo virtuoso” surge quando a infraestrutura digital fortalece a demanda por energia renovável, a expansão da energia renovável atrai Data Centers, os Data Centers impulsionam a exportação de serviços e a inovação. As ZPEs oferecem uma plataforma institucional e territorial capaz de integrar esses investimentos. Essa convergência pode posicionar o Brasil não apenas como grande consumidor de tecnologia digital, mas como relevante plataforma global de infraestrutura digital verde.

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